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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lei complementar 97, o ocaso das Forças Armadas...

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Blog do Clausewitz

Projeto consolida poder civil sobre militar

O projeto de reestruturação do Ministério da Defesa, a ser enviado ao Congresso até o fim de novembro, consolida o poder civil sobre a área militar por meio de mudanças na Lei Complementar nº 97. A Defesa passará a ter voz na confecção do orçamento das três Forças - Exército, Marinha e Aeronáutica. Os comandantes militares também serão nomeados “por indicação”, e não mais após ser “ouvido” o Ministério da Defesa.

Dez anos depois de criada, Defesa terá lei para se impor sobre as Forças Armadas

Raymundo Costa, de Brasília

Após adiamentos sucessivos, o projeto de reestruturação do Ministério da Defesa deve ser enviado ao Congresso neste mês. Trata-se de um conjunto de medidas para fortalecer a Pasta criada há dez anos para entrosar Exército, Marinha e Aeronáutica sob um mesmo comando. Algumas propostas parecem simbólicas, mas são de grande importância na rotina de forças militares que de uma ou outra forma se confundem com a própria história do país. Representam, sobretudo, a consolidação do poder civil sobre o das armas.

A principal mudança será na Lei Complementar 97, que criou o Ministério da Defesa, em junho de 1999. Entre as medidas acertadas, o ministério ganha poder na confecção do orçamento militar. Atualmente, o orçamento das três Forças é "consolidado" no ministério. O novo texto legal dirá que a proposta será elaborada pelos comandos militares - Exército, Marinha e Aeronáutica - "em conjunto" com a Defesa. Na prática, isso já ocorreu este ano. Mas sem amparo legal e sim por uma conjugação política que se mostrou favorável ao ministro Nelson Jobim na relação com os chefes militares.

Quando assumiu o MD, Jobim procurou cercar-se de oficiais com efetiva representatividade na tropa, caso de generais oriundos do comando da Amazônia ou das tropas brasileiras estacionadas no Haiti. Esses são os dois dos cargos de maior prestígio, atualmente, nas Forças Armadas. Antes esse papel era desempenhado pelo 3º Exército, atual Comando Militar do Sul, devido à disputa da hegemonia regional com a Argentina. Mais de um presidente da República do ciclo dos generais passou pelo comando do 3º Exército.

Na proposta a ser remetida ao Congresso, o secretário do Estado Maior Conjunto do Ministério da Defesa será um oficial de quatro estrelas. Isso tornará o posto equivalente ao dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. "Não são mudanças fáceis em instituições com história e tradição", disse o deputado José Genoino (PT-SP) ao Valor. O congressista acompanhou praticamente todas as fases de discussão e negociação do projeto de reestruturação do Ministério da Defesa, a curto prazo, e das próprias forças militares a médio e longo prazos.

"É uma demonstração de muito compromisso democrático: discute-se a política de defesa, reestruturação e a memória (caso dos desaparecidos), sem reivindicações corporativas, crise ou pronunciamento militar", diz Genoino, referindo-se à alternância de golpes de Estado e governos democráticos que marcaram a paisagem política do país, desde a Proclamação da República, que há mais de 100 anos (1889) determinou o fim da monarquia pelo fio da espada.

É nesse sentido a determinação de que as prioridades do orçamento sejam aquelas estabelecidas na Estratégia Nacional de Defesa. O texto da Lei Complementar 97 remete à "Política de Defesa Nacional". O fato de a palavra "nacional" vir em primeiro lugar não é mero acaso. Outra mudança a caminho: as operações militares deixam de ser "combinadas" e passam a ser "conjuntas". O que parece eufemismo na prática significa que as manobras obedecerão a uma cadeia hierárquica que mistura integrantes das três Forças - hoje, Exército, Marinha e Aeronáutica mantêm, cada qual, a própria hierarquia, nessas operações.

Segundo fontes da área de defesa, o mérito do ministro Nelson Jobim foi ter envolvido Exército, Marinha e Aeronáutica na elaboração da Estratégia Nacional de Defesa - o antigo chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, contribuiu com algumas ideias, mas na realidade foi mais um redator do documento. Com os oficiais diretamente envolvidos, começou um processo de diálogo e convencimento, quase sempre muito difícil, cheio de arestas ainda não de todo aparadas.

Há mudanças que pareciam fora do alcance há apenas dez anos, quando o ministério foi criado. O melhor exemplo é o que trata da nomeação dos comandantes das três Forças. Atualmente eles são designados pelo presidente da República, "ouvido" o Ministério da Defesa. O novo texto será taxativo: os comandantes serão nomeados pelo presidente "por indicação" do MD.

Há outras mudanças que parecem incompreensíveis para o universo civil, mas são de muita valia no campo militar. Até agora, todos os promovidos a general são apresentados diretamente ao presidente da República. O novo ritual determina que eles sejam primeiro apresentados ao ministro da Defesa, que, em seguida, os apresentará ao presidente. Os comandantes também deixam de marcar encontros diretamente com o presidente.

Rabiscado, o projeto ainda é objeto de consulta aos diversos escalões das Forças Armadas. Em resumo, a estratégia de Jobim é ouvir, discutir e negociar com os militares. Basicamente, o que o ministro faz é o que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pensou quando criou o Ministério da Defesa: racionalizar e entrosar as três Forças, em vez de manter Exército, Marinha e Aeronáutica sob ministérios distintos e mesmo distanciados. Os militares da época aceitaram a indicação de um ministro civil, mas nunca efetivamente levaram a sério o Ministério da Defesa. Oficiais "encostados" eram rotineiramente designados para o ministério.

A reestruturação do Ministério da Defesa implicará a reestruturação das três Forças no médio e longo prazos. O atraso no envio de projetos ao Congresso demonstra que nem todas as arestas foram polidas. O Exército reclama que Marinha e Aeronáutica ganharam submarinos e caças, enquanto a Força terrestre não levou nada, até agora. A Defesa argumenta que é apenas uma questão de cronograma, o Exército será também atendido, na hora certa. Já a Marinha, que mantém elevada a autoestima de "Força intelectualizada" teme perder espaço para o Exército.

Ponto polêmico: as promoções, em cada Força, são enviadas diretamente ao presidente da República. Discute-se se cabe ao Ministério da Defesa interferir em um assunto considerado interno. De um modo geral, as mudanças acertadas estabelecem a autoridade do Ministério da Defesa sobre os comandos.

Haverá um reagrupamento geográfico das tropas na região Centro-Oeste, ponto equidistante da Amazônia, do Sul, do Nordeste e Oeste do país. A concentração no Sul e no Rio de Janeiro é considerada uma concepção ultrapassada. A rigor, o remanejamento de tropas já está em andamento, com discrição.

A brigada do Exército será a unidade de excelência nessa nova configuração. Deve ser acantonada nas mediações de Brasília, assim como a base aérea. Jobim queria transferir a Escola Superior de Guerra (ESG) para a capital da República. Houve reação e o ministro terá de se contentar com a criação de um campo avançado da ESG, em Brasília. A ideia é formar uma elite de intelectuais de defesa.

Na concepção, a política de defesa prevê o emprego das Forças Armadas como poder dissuasório. Mas flexíveis o bastante para se transformar em forças de ataque, em caso de necessidade.

O projeto em curso tem repercussão internacional, como a parceria privilegiada com a França. Ainda é nítida na retina dos militares brasileiros as dificuldade que os argentinos enfrentaram na guerra das Malvinas, quando foram isolados pelas forças da Otan (EUA à frente). Os argentinos nem sequer conseguiam comprar peças de reposição para o míssil exocet, que fez estragos nas forças navais inglesas, no início do conflito.

"Parceria estratégica na compra de equipamentos. Nenhuma Força compra isoladamente submarinos, helicópteros e, claro aviões - a parceria com a França permitiu que eles oferecessem mais que o Estados Unidos e Rússia", afirma um interlocutor de Jobim. A Rússia, além da instabilidade política, não não tem estabilidade em relação à manutenção de equipamentos. Os Estados Unidos, por seu turno, têm restrição à transferência de tecnologia. O avião de treinamento supertucano, por exemplo, fabricado pela Embraer, não pode ser vendido a certos países porque tem tecnologia americana. A França não tem vetos. Acima de tudo, a França tem assento no Conselho de Segurança Nacional da ONU, um lugar cobiçado e perseguido pelo governo Lula.

Os projetos para reequipar as Forças Armadas devem ter em vista o programa nacional de desenvolvimento. A tendência do governo Lula é favorecer empresas nacionais, inclusive incentivar a criação de um parque industrial de defesa. O mote é que toda linha de produção militar tem uma interface civil. Quase uma centena de empresas já atendem a projetos em curso.

Além da Lei Complementar 97, a reestruturação da Defesa requer decretos a serem baixados pelo presidente da República, mas sobretudo mudanças na Lei 8.666, que trata das licitações. O objetivo é permitir aos militares contratar, sem licitação, empresas que julgarem estratégicas para o desenvolvimento de produtos sensíveis. Há promessa de transparência em compras feitas sem licitação, o que é incomum nesse mercado, para dizer o mínimo.

Uma empresa do grupo Fiat, a Iveco, por exemplo, desenvolve em Minas Gerais o carro de combate sobre rodas Urutu 3. Encomenda do Exército. Outra empresa desenvolve um equipamento de radar móvel, que pode ser transportado pelos soldados. "Busca-se nas Forças Armadas necessidades que possam ser usadas para estimular a atividade econômica", disse fonte ligada ao Ministério da Defesa.

Jobim tem a cumplicidade das Forças à medida que o governo Lula promete dinheiro para equipar Exército, Marinha e Aeronáutica. O Ministério da Defesa na criação de um fundo para assegurar os recursos ou na criação de uma regra que impeça o contingenciamento de recursos previstos no Orçamento Geral da União. As Forças serão beneficiadas com o dinheiro do pré-sal que será destinado à ciência e tecnologia; mas especificamente a Marinha terá dinheiro para o submarino nuclear.

A lei que permite à Aeronáutica abater aeronaves também será mudada. Atualmente, a Força Aérea pode abater ou fazer pousar um avião, mas não pode prender tripulação e passageiros, o que é atribuição da Polícia Federal, no caso de traficantes. Semana passada, depois de disparar rajadas de metralhadoras de aviso, a FAB conseguiu que um pequeno avião pousasse nas mediações de Brasília. Acionada, a PF chegou mas encontrou apenas o avião carregado de drogas: a tripulação fugira. Com a mudança, os militares também poderão prender traficantes, que desde a promulgação da Lei do Abate trocaram boa parte das rotas aéreas pela rede de rios e estradas secundárias da Amazônia

Fonte: Valor Econômico

Postado por Clausewitz às 12:35

terça-feira, 3 de novembro de 2009

FHC e o tema de nosso tempo

Mídia Sem Máscara

Partido e Estado formando uma unidade é o totalitarismo com todas as letras e o Brasil já vive isso, conforme ele observou. Infelizmente, é o que tenho escrito há bem mais tempo. Esse processo começou no dia da posse de Lula. Este artigo tardou a ser escrito.

O tema de nosso tempo é o totalitarismo (que chamei de Estado Total) e o Brasil caminha a passos largos na sua direção. Os leitores que me acompanham estão perfeitamente cientes dos perigos que nos rondam. E quero confidenciar aqui que o artigo hoje publicado em vários jornais pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (Para onde vamos?), ao mesmo tempo que me envaideceu, me deixou entristecido. Vejo que vários dos pontos preocupantes que tenho levantado em minhas análises foram plenamente endossados por ele. FHC também está muito preocupado com o futuro político do Brasil. Ter a concordância de FHC mostra que, de fato, não tenho errado nas análises, algo a envaidecer-me. Porém, fico triste porque acertar aqui é perder, pois os riscos emergem de todos os lados, as ameaças brotam, a sociedade treme inerme diante do Estado Total petista.

FHC inicia o artigo indo direto ao ponto principal, a plena alienação da sociedade brasileira diante da arrogância e exorbitância do governo Lula: "A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio 'talvez' porque alguns estão de tal modo inebriados com 'o maior espetáculo da terra', de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?"

FHC só não pode afetar surpresa por isso. Ele sabe perfeitamente bem que o grande eleitor de Lula e o pavimentador dos caminhos do PT ao poder foi ele mesmo. A alienação da sociedade aconteceu em larga medida em seu próprio tempo de poder e oriunda de seus próprios métodos. Não faz muito eu comentei a entrevista que FHC deu à revista Dicta&Contradicta, na qual ele se declarou partidário dos métodos políticos de Gramsci. Ora, o resultado disso não seria coroado no seu governo, socialista meia-boca, ainda com o ranço "burguês". A social-democracia sempre preparou o terreno para que os radicais desembarcassem no poder de Estado. Como teórico da revolução gramsciana ele tem perfeitamente claro como funciona a coisa toda.

FHC completou no exórdio do artigo: "Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos".

Sim, tem método, o método usado por FHC ele mesmo e seu grupo, desde antes de chegar ao poder. Impessoal, a despeito do príncipe tresloucado, um estúpido com cara de torcedor e futebol. A revolução no ensino, alienando os jovens, a edição de material didático mentiroso, o agigantamento acelerado do Estado, do lado da receita e da despesa, o controle ideológico dos meios de comunicação, foi tudo que FHC realizou. Até mesmo as malditas bolsas em troca de votos foi criação sua. FHC se preocupa talvez porque um insensato é um príncipe despreparado. Ora, quando os demônios são soltos fazem coisas que se esperam deles. Afinal, são demônios. É o que estamos vendo. Nada do que Lula faz é diferente do que FHC fez, exceto que o processo é cumulativo e está em grau muito mais avançado, praticamente temos vinte anos nessa marcha forçada no rumo do totalitarismo. Que a revolução gramsciana se faz assim mesmo, "devagarinho, quase sem que se perceba". Agora FHC chama a isso de "pequenos assassinatos", figura notavelmente apropriada, mas ele é mais que cúmplice desses crimes, pode ser considerado o mandante. FHC poderia ter salvo o Brasil desse desastre, mas jamais quis isso. Como um Fausto tupiniquim achou que poderia negociar com Mefistófeles sem entregar a alma. O fogo arderá para todos. FHC deu-se conta da dimensão da tragédia que nos espera.

Completou: "Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do 'autoritarismo popular' vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o". Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: 'Minha casa, minha vida'; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos".

FHC teve a coragem de vir a público dizer essas coisas todas, uma surpresa para mim. Falar, como o fez, em autoritarismo popular é ainda um eufemismo, mas uma figura de linguagem que já dá a dimensão trágica do real. Afinal, FHC carrega a autoridade de ex-presidente, patrono de todos os esquerdistas, inclusive e sobretudo de Lula e seu grupo. De uma maneira que me pareceu desapropriada comparou as ações de Lula com as dos governos militares, esquecendo-se de dizer que os militares implantaram o regime de força para livrar o Brasil das mesmas forças totalitárias aglutinadas em torno de Lula; e, depois, fizeram a abertura política e entregaram o poder aos civis, sem qualquer trauma. O processo agora é precisamente o inverso e mais paralelo vejo com o período imediatamente anterior ao pré-64: as esquerdas se aproximando do poder total pela via democrática, objetivando destruir a ordem democrática para perpetuar-se. FHC não perdeu o sestro de falar mal dos militares, para cortejar talvez aqueles a quem denuncia no artigo. Seu medo ainda não alcançou as devidas dimensões.

Não obstante, foi capaz de escrever: "Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados". Nesse trecho podemos notar sua ansiedade e sua urgência. Partido e Estado formando uma unidade é o totalitarismo com todas as letras e o Brasil já vive isso, conforme ele observou. Infelizmente, é o que tenho escrito há bem mais tempo. Esse processo começou no dia da posse de Lula. Este artigo tardou a ser escrito.

Em meus artigos os leitores têm lido muito sobre o papel adquirido na economia pelos fundos de pensão e como eles se tornaram instrumentos para a chegada ao socialismo, a partir da resenha que fiz do livro de Peter Drucker. É a primeira vez que vejo o problema colocado nos mesmos termos que tenho escrito: "Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas - com a liberdade de vender e comprar em bolsas - mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde".

Pergunta: quem tem força para dar basta ao continuísmo? Ora, direis, as estrelas. Quais? As quatro, aquelas mesmas quatro que em 1964 tiveram a força e o discernimento para espantar os alucinados do poder. Que venham enquanto é tempo. Ora, direis, ouvir estrelas... Melhor ouvir clarins?

As vermelhas jogam e ganham

Mídia Sem Máscara

Aceitaram o que Zelaya exigia: a decisão sobre sua restituição - em si impensável um mês atrás - será resolvida pelo Congresso e não pela Justiça. Mesmo que o Congresso vote contra a restituição - caso em que as turbas zelaystas colocarão fogo no país - o próprio acordo já é uma derrota da Lei!

No xadrez jogado atualmente no istmo da América Central as tradicionais cores branca e preta são substituídas pelas vermelha - comunista - e azul - cor predominante na maioria das bandeiras da região. Quando escrevi Lance de Grande Mestre eu já previa que Zelaya chegara para ficar como uma peça fortíssima ameaçado permanentemente o Mate e virar o jogo a favor do Foro de São Paulo.

Não deu outra! Depois de uma oferta de empate pelo Governo Constitucional - Micheletti renunciaria se Zelaya fizesse o mesmo, uma espécie de trocas das damas, gambito arriscado - as vermelhas não aceitaram, empurraram um peão para a oitava casa e fizeram outra peça forte. Zelaya sabe que está 'com as costas quentes', protegidas pelo apoio da administração obaminável que mandou sua peça fortíssima, Shannon, para dar o Cheque-Mate nas azuis. (Leiam aqui quem manda na política obaminável para Honduras). Estas ainda tentaram um lance desesperado em Haia que provavelmente não dará em nada - e, se der - será dentro de meses e a história de Honduras já será outra. O acordo Guaymuras é uma tentativa de dissimulação da derrota das azuis e salva a face de Micheletti, da Justiça e das Forças Armadas hondurenhas. Aceitaram o que Zelaya exigia: a decisão sobre sua restituição - em si impensável um mês atrás - será resolvida pelo Congresso e não pela Justiça. Vence a democracia, perde o rule of law! Vence a decisão popular, perde a moral a Corte que o derrubou e mandou zarpar do país. Vence a demagogia - o Partido Nacionalista, virtual vencedor das eleições poderá votar a favor para não perturbá-las e legitimar a nova administração perante a nefasta 'comunidade internacional'.

Mesmo que o Congresso vote contra a restituição - caso em que as turbas zelaystas colocarão fogo no país - o próprio acordo já é uma derrota da Lei!

Na Nicarágua Ortega conseguiu a reeleição perpétua e ninguém se intrometeu. Além dos inevitáveis e formais muxoxos da famigerada ONU o resto do mundo permanece a favor dele - da democracia contra a Lei - ou mostra indiferença. No Brasil setores liberais aplaudem uma fraude montada pelos irmãos Castro e acreditam na autenticidade de uma impostora. Parabéns, Foro de São Paulo!

Fobia ao uso de palavras

É impressionante como a campanha desenvolvida pelo Komintern desde a década de 30 do século passado para desmoralizar o anticomunismo gerou uma fobia até mesmo nos articulistas liberais: poucos ousam escrever ou pronunciar a palavra comunismo. É populismo, bolivarianismo ou qualquer outra palavra vazia de significado. Comunismo nunca, embora o Foro de São Paulo fosse explícito na sua fundação: recuperar na América Latina o que foi perdido na Europa do Leste! E o que se perdeu por lá?

O enigma Yoani Sanchez

Mídia Sem Máscara

Essas e outras experiências pelas quais passei, como, por exemplo, a de ser filmado e seguido nas ruas depois de conversar com alguns dissidentes, me põem as barbas de molho sobre a possibilidade de que a blogueira Yoani Sanchez seja quem diz ser.

No dia 12 de novembro de 2002 eu estava em Havana recolhendo subsídios para um livro. No bolso, uma lista com nomes de jornalistas independentes que me fora fornecida pela amiga pernambucana Graça Salgueiro. Pretendia ouvir aqueles obscuros personagens que, com enormes riscos pessoais, enviavam informações ao mundo. De que modo faziam isso? Do mesmo modo utilizado hoje. Como cubanos, cidadãos de segunda categoria em seu país, eles não podem fazer o que aos estrangeiros é permitido. Então, ou se valem do generoso e discreto auxílio de colegas não cubanos com acesso ao Centro de Imprensa ou de contatos em hotéis e outros raros pontos onde estejam disponíveis conexões à internet. Eu trazia comigo, repito, os nomes de três ou quatro dezenas desses bravos "periodistas" marginalizados pelo regime. Mas não sabia como os localizar.

Em Havana, os cubanos te param na rua a cada dez passos para oferecer chicas e charutos ou para se disponibilizar como guias turísticos. Estes últimos fazem plantão diante dos hotéis e costumam ser muito cordiais. Todos rendem a maior solicitude a uma nota de dez dólares (é mais do que o salário de um mês). Então, por duas vezes, na tarde daquele dia, tentei usar a intermediação desses cubanos para me ajudarem a contatar com alguns daqueles jornalistas, sem resultado. Sem resultado? Minto. Ao exibir para essas pessoas os nomes que a Graça me fornecera, colhi um resultado, sim: um esgazeado olhar de pânico lançado ao redor, seguido de súbita e silenciosa retirada. O cubano vive com medo. E eu, naquele exato dia, desisti de encontrar meus periodistas independientes. A minha lista era assustadora.

Essas e outras experiências pelas quais passei, como, por exemplo, a de ser filmado e seguido nas ruas depois de conversar com alguns dissidentes, me põem as barbas de molho sobre a possibilidade de que a blogueira Yoani Sanchez seja quem diz ser. O tema foi muito bem levantado em recentes artigos pela própria Graça Salgueiro (notalatina.blospot.com) e pelo psiquiatra rio-grandino residente no Rio, Heitor de Paola (www.heitordepaola.com). A existência de alguém como a blogueira, vivendo em Cuba, dizendo o que diz, livre, leve e solta é algo bem além das fronteiras do crível.

Entendamo-nos, leitor. Antes de retornar para o Brasil, eu tive o cuidado de destruir a lista de nomes que levava comigo porque, em virtude das experiências que relatei no livro "Cuba, a tragédia da utopia", temi ser revistado ao passar pela Seguridad del Estado no aeroporto José Martí. Pois eis que em março de 2003 um arrastão repressivo varreu a Ilha. Setenta e cinco pessoas presas. Jornalistas independentes e dissidentes políticos condenados a penas que chegavam a 25 anos naquelas infectas prisões políticas. E entre esses presos se contavam três dos quatro dissidentes que eu havia conseguido entrevistar, quando em Havana, porque destes eu tinha comigo os telefones (mais tarde descobri que eram grampeados, o que deu origem aos incidentes que se seguiram).

Pois bem, se as coisas em Cuba são assim, como pude constatar pessoalmente, parece-me pouco verossímil que Yoani Sanchez não conte com beneplácito do regime. Seria muito estranho. Sua liberdade de movimentos não combina com os fatos num país onde toda a brutalidade é possível e onde qualquer liberdade é improvável. Basta conversar com um cubano para perceber que emitir opinião contra o regime lhes faz mal à saúde pessoal e familiar. No universo das probabilidades, a maior delas é a de que dona Yoani esteja na missão de sugerir ao mundo que lá se pode, livremente, fazer o que ela faz.

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