Assine nosso Feed e fique por dentro das atualizações

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os "indesejáveis" e a propaganda da inverdade

Mídia Sem Máscara

Julio Severo | 02 Fevereiro 2010
Artigos - Aborto

Os nazistas queriam resolver o seu "problema". O presidente do Irã quer resolver o seu "problema". Os defensores do aborto querem resolver o seu "problema". A propaganda é diferente, mas o resultado é o mesmo.

Tudo começa na propaganda em massa, e a grande mídia, que tem praticamente monopólio dessa propaganda, pode provocar alterações imensas na mentalidade da população. Já dizia o chefe de propaganda nazista que uma mentira repetida mil vezes se torna verdade. Tal repetição na grande mídia pode transformar na mente popular ódio em amor e vice-versa, e morte em vida, e vice-versa.

Contudo, o debate agora não mais é sobre a vida dos "indesejáveis" judeus na mídia da Alemanha nazista. O debate agora trata dos "indesejáveis" bebês em gestação na moderna mídia do Brasil.

Em seu artigo "Abortando o problema", Hélio Schwartsman, articulista e editorialista da Folha de S. Paulo, defendeu o aborto com a seguinte argumentação:

"Suponhamos por um breve instante que as leis e instituições funcionassem direitinho no Brasil e que todas as mulheres que induzem ou tentam induzir em si mesmas um aborto fora das hipóteses previstas em lei (risco de vida para a mãe ou gravidez resultante de estupro) fossem identificadas, processadas e presas. Neste caso, precisaríamos construir 5,5 novos presídios femininos (unidades de 500 vagas) por dia apenas para abrigar as cerca de 1 milhão de ex-futuras mamães que interrompem ilegalmente suas gravidezes a cada ano".

Eu não sei de que cartola Schwartsman tirou esse coelho de 1 milhão para basear seus cálculos, já que é hábito antigo da propaganda pró-aborto no Brasil inchar os números. O Dr. Bernard Nathanson, médico judeu que se tornou o diretor da maior clínica de abortos do mundo ocidental e presidiu 60 mil operações de aborto, confessou acerca da propaganda antes da legalização do aborto nos EUA:

Diante do público... quando falávamos em estatísticas [de mulheres que morriam em conseqüência de abortos clandestinos], sempre mencionávamos "de 5 a 10 mil mortes por ano". Confesso que eu sabia que esses números eram totalmente falsos... Mas de acordo com a "ética" da nossa revolução, era uma estatística útil e amplamente aceita. Então por que devíamos tentar corrigi-la com estatísticas honestas? [1]

Quando a meta é exterminar o "problema", para os nazistas os fins justificavam os meios - e a propaganda e as estatísticas infladas. Hoje, quando a meta é abortar o "problema", igualmente os fins justificam os meios - e a propaganda e as estatísticas infladas.

Mas mesmo que o número de 1 milhão de Schwartsman fosse correto, o que fazer? A doutrinação "cultural" controlada pelos nazistas na Alemanha chegou a tal ponto que grande parte da população concordava em exterminar judeus - e provavelmente um número significativo de alemães participou ativamente de tal extermínio. O que fazer? O número elevado de participantes de um crime justifica sua aceitação e legalização?

O bom, no caso do Dr. Nathanson, é que ele acabou largando seu multimilionário negócio sujo de fazer abortos e manipular estatísticas.

As "maravilhas" do aborto legal

O argumento de Schwartsman prossegue: "Recursos igualmente vultosos teriam de ser destinados à edificação de orfanatos, para abrigar os milhares de crianças que ficariam desassistidas enquanto suas mães cumprissem pena".

Então, com a legalização do aborto, haveria menos despesas para o governo? Bem vindo a "Alice no país das maravilhas do aborto"! E quanto aos recursos mais vultosos, sr. Schwartsman, que teriam de ser destinados para arcar com o enorme sistema que teria de ser criado a fim de atender centenas de milhares de mulheres que, seduzidas pelos anúncios da indústria estatal do aborto, fariam dois, três ou quatro abortos? Quem vai pagar essa imensa conta, sr. Schwartsman? E quem vai pagar a conta dos traumas e seqüelas do aborto nas mulheres e suas famílias?

Tente, sr. Schwartsman, junto com sua esposa dar a seus filhos pequenos educação escolar em casa, e diante de sua persistência, o governo o condenará à prisão ou no mínimo à perda da guarda de seus filhos, pouco se importando se suas crianças pequenas ficarão sem pai e mãe. Enquanto você propõe que mulheres que matam sejam poupadas, famílias que não matam nem estupram não estão sendo poupadas pelo Estado que quer controle sobre tudo e sobre todos.

O governo também quer criminalizar a prática de pais amorosos disciplinarem os filhos. Quanto dinheiro, sr. Schwartsman, deverá ser gasto para a construção de orfanatos para crianças cujos pais forem presos pelo "crime" de educar os filhos em casa ou por fazerem uso de seu tradicional direito de disciplinar e corrigir fisicamente a desobediência dos filhos?

Se até pais e mães inocentes estão sendo condenados, por que indivíduos culpados não podem ser condenados?

Se uma mãe mata uma criança de seis anos, ou mata outro adulto, deveria o Estado poupá-la só porque ela tem outros filhos para criar?

No caso em que uma mãe matou deliberadamente seu bebê em gestação, que chances os outros filhos dessa mulher terão de ter uma criação psicologicamente saudável e sem traumas?

Onde o aborto coloca a mulher?

O aborto intencional também coloca a mulher numa categoria diferente do papel de mãe amorosa. Enquanto, a fim de obter conquistas, o movimento feminista pró-aborto pinta todas as mulheres como eternas oprimidas e vítimas, o assassinato de bebês em gestação efetivamente coloca a mulher que mata na categoria de opressora.

Com o aborto intencional, a mulher se junta ao homem na capacidade e desumanidade de agredir, violar direitos e matar uma vida inocente.

Schwartsman continua: "Vale observar ainda que essa minha conta despreza um número significativo de médicos, parteiras ou simplesmente comadres e amigas que de algum modo auxiliaram as nossas reeducandas a livrar-se dos fetos indesejáveis e, pela lei, também deveriam ir à cadeia".

O que fazer com os milhares de guardas de campo de concentração, médicos sádicos e todos os outros alemães que colaboraram para exterminar os "indesejáveis"? Essa seria uma boa pergunta para o editorialista da Folha de S. Paulo.

Questão de saúde pública?

Em todo caso, Schwartsman insiste em que "o problema do aborto não é uma questão que se resolva na Justiça". É questão de que, então?

Exterminar judeus era uma questão de saúde pública? Provavelmente, a população alemã amante da cultura nazista diria que sim, respondendo que é muito mais saudável não ter os indesejáveis judeus por perto. Hoje, quem está na categoria de indesejáveis são os bebês em gestação, cujo extermínio não é encarado como grave problema ético e criminal, mas simplesmente como "questão de saúde pública".

A contracepção diminui os abortos?

Schwartsman diz: "O importante, em termos práticos, é criar as condições para que as mulheres não precisem abortar, o que se consegue basicamente com a oferta de métodos contraceptivos gratuitos ou pelo menos muito baratos à população (com o que a Igreja Católica não concorda) e com educação. Os estudos demográficos são unânimes em apontar uma fortíssima correlação entre o nível de instrução da mulher e a diminuição da fecundidade e, por conseguinte, dos abortos clandestinos."

O acesso amplo a contraceptivos diminui o número de abortos? Schwartsman deveria explicar isso para os EUA e Europa, que são campeões em contracepção e aborto legal! Só os EUA têm hoje mais de 1 milhão de abortos legais por ano. Desde a legalização do aborto nos EUA em 1973, mais de 50 milhões de bebês em gestação foram assassinados. A contracepção diminui o número de abortos, sr. Schwartsman, só em shows mágicos de cartolas e coelhinhos.

Mas concordo com ele em que há uma "fortíssima correlação entre o nível de instrução da mulher e a diminuição da fecundidade". Apesar disso, não há nenhuma correlação entre o nível de instrução da mulher e a diminuição de abortos legais. Nenhuma. Basta ver as americanas e européias: diplomadas e carreiristas movidas à abundante contracepção e abundantes abortos.

Diplomadas, carreiristas e aborteiras

O que está bastante documentado é que grupos governamentais e não governamentais dos EUA, junto com instituições internacionais como a ONU, vêm há décadas impondo a educação sistemática das mulheres, não por uma preocupação com o bem-estar delas, mas exclusivamente para alcançar seu objetivo maior de reduzir a população mundial - inclusive por meio do aborto legal.

De acordo com eles, a mulher que passa mais tempo na escola e universidade terá como preocupação central da vida suas próprias ambições profissionais, deixando o casamento para mais tarde, se chegar a se casar. Quando se casa - perto da idade de 30, quando 90% dos óvulos já se foram -, ela tem um ou dois filhos, e é mais propensa a abortar como meio de proteger sua carreira. A mulher profissional de hoje é modelo de produção em massa idealizado pela elite do controle populacional. Ela é a imagem e semelhança dos planejamentos dos engenheiros sociais pró-aborto e anti-família.

A educação mais prolongada da mulher diminui suas chances de casamento e família, mas jamais reduz sua atividade sexual, que começa bem cedo e sem nenhum compromisso. O sr. Schwartsman poderia então apresentar uma proposta mais ética e justa: mulheres que não querem ter bebês deveriam evitar relações sexuais, que normalmente levam à gravidez. Se ele não entende esse principio tão básico, tão primordial, o que ele conseguirá entender sobre vida, filhos e família?

Essa proposta racional e prática resolveria vastos problemas sociais e individuais, inclusive o aborto e filhos traumatizados nascidos de relações de indivíduos cujo único compromisso é o hedonismo.

O sr. Schwartsman dá sua razão para não se considerar a vida sagrada: "Estima-se que 2/3 a 3/4 dos óvulos fecundados jamais se fixem no útero, resultando em abortos espontâneos". É como dizer que, só porque milhares de homens e mulheres morrem de acidentes todos os dias, podemos esquecer igualmente a sacralidade da vida e aprovar as pretensões assassinas que vierem à cabeça de desalmados editorialistas e legisladores.

Incertezas sobre o direito à vida: a novela se repete

O restante do texto do sr. Schwartsman se ocupa em obscurecer as questões relativas ao começo da vida humana, procurando contrapor ciência com religião, e religião com religião, como se a ciência, o direito, a filosofia e a religião não pudessem ficar a serviço da "ética" ideológica predominante. Ciência e religião não eram problemas para o Estado laico da Alemanha nazista e União Soviética. Aliás, por pura coincidência o aborto era a ética do Estado laico da Alemanha nazista e União Soviética que, mesmo se declarando a favor da família, eram assassinos de bebês e famílias. Ambos os sistemas assassinavam dentro e fora do útero.

Se o sr. Schwartsman tivesse passado por tais sistemas, sua mãe e o Estado teriam a palavra final sobre a vida dele dentro do útero, cabendo exclusivamente ao Estado todas as decisões de vida ou morte dele fora do útero, com pouca chance de ele sobreviver para se tornar um formulador de teorias chiques, falsas e tortas na Folha de S. Paulo, posando de filósofo que sabe pensar sobre questões éticas.

Incertezas sobre a vida sempre existirão, mas nada deveria nos impedir de alcançar uma genuína ética que enxergue "todos os seres humanos como criação de Deus". Havia durante séculos incertezas sobre a humanidade dos judeus. Alguns criam que eles eram seres meio humanos. Outros, nem isso. A motivação por trás de cada incerteza ou certeza era muitas vezes o ódio. E não é diferente no debate sobre o aborto. Quando se fala em "abortar o problema", a motivação inegável é o ódio, pois o ódio leva à destruição de vidas inocentes.

A visão ideológica sobre os "indesejáveis"

Hoje, o mundo islâmico - que conta com pelo menos 1 bilhão de adeptos - tem em menor ou maior grau muitas incertezas sobre o direito à existência dos judeus e os mais radicais entre eles têm a opinião de que os judeus são simplesmente porcos e animais descartáveis, e é certeza que com uma legalização oficial do extermínio de judeus, muitos outros odiadores sairiam do armário.

Não é o ódio que está motivando o presidente do Irã a fabricar armas nucleares para destruir Israel? Ele pouco se importa se os judeus são seres humanos ou não. De forma igual, os defensores do aborto pouco se importam se os bebês em gestação são seres humanos ou não. O ódio, para eles, é tudo.

Os nazistas queriam resolver o seu "problema". O presidente do Irã quer resolver o seu "problema". Os defensores do aborto querem resolver o seu "problema". A propaganda é diferente, mas o resultado é o mesmo.

Na Alemanha nazista, governo e mídia andavam de mãos dadas com a idéia de que os "indesejáveis" judeus eram o problema. No Brasil moderno, governo e mídia andam de mãos dadas com a idéia de que os "indesejáveis" bebês em gestação são o problema.

Como seguidor de Jesus Cristo e sua ética, na Alemanha nazista eu defenderia os "indesejáveis" judeus do mesmo jeito que defendo hoje os "indesejáveis" bebês em gestação. E mesmo diante do extremo ódio e irracionalidade de muitas nações contra Israel, eu ouso defender o direito do "indesejável" Israel à existência, por causa das promessas de Deus a Abraão, Isaque e Jacó.

Apesar das incertezas que o sr. Schwartsman tentou introduzir no debate sobre o aborto, a única certeza que sobra no texto dele é que deve-se abortar o "problema".

Sr. Schwartsman, o "problema" não é o judeu, nem o bebê em gestação. O problema é a falta de ética verdadeira - a mesma ética que dirigiu cristãos a abrigarem e esconderem judeus dos nazistas, a mesma ética que hoje os leva a defender o direito à vida dos bebês em gestação contra as propagandas que defendem os Auschwitz do aborto.

O mundo ficaria melhor com a destruição legal deles?

Schwartsman finaliza dizendo: "O mundo não é exatamente um lugar bonito. Mas não precisamos piorá-lo ainda mais transformando-o numa imensa penitenciária". Essencialmente, ele quis dizer: "O mundo ficaria menos feio se ninguém fosse punido por matar bebês em gestação".

Nos países onde o Estado controla a tudo e a todos, ninguém vai para a cadeia por matar bebês em gestação. A União Soviética e a Alemanha nazista, nações pioneiras na moderna legislação pró-aborto, não precisavam construir mais penitenciárias para prender mulheres que matavam seus filhos em gestação. Para Schwartsman, só isso já era uma grande economia!

Contudo, não havia economia nenhuma para perseguir os inocentes. Tanto a União Soviética quanto a Alemanha nazista precisaram construir muito mais campos de concentração, para prender, torturar e matar as pessoas que discordavam do sistema e de sua "ética". Quando os criminosos e seus crimes recebem proteção legal, os inocentes acabam perdendo a sua.

Correndo o risco de ser repetitivo contra os argumentos repetitivos de Schwartsman, a legalização do aborto provocará a tenebrosa necessidade de se estabelecer milhares de clínicas estatais e serviços de aborto em todo o Brasil - a um elevado custo que, como sempre, ficará sobre os ombros do trabalhador brasileiro. Que destino desgraçado! Trabalhar para pagar a conta de sangue dos outros!

Nos países em que o aborto é livre, o cidadão que recusa pagar o imposto do aborto é preso. O cidadão que ousa orar ou se manifestar pacificamente em frente de um matadouro estatal de bebês pode ser preso como se fosse um criminoso - enquanto médico e mulher dentro da clínica matam sob a proteção da lei. E ai de quem chamar os assassinos de assassinos, pois a polícia vem para bater - nos que contrariam o "sagrado" direito de matar.

Hoje, à medida que o Estado brasileiro controla mais e mais a vida dos cidadãos e vai caminhando para descriminalizar o aborto, o direito de livre expressão de criticar essa marcha assassina vai sendo cortado, trazendo o espectro de um dia em que o futuro Estado abortista sentirá necessidade de construir milhares e milhares de penitenciárias para abrigar os milhões de cidadãos brasileiros que discordam da imperiosa e sacrossanta visão estatal e midiática do aborto.

O sr. Schwartsman tem suas razões para tornar o aborto legal menos repulsivo: O nome dele está ligado ao grupo pró-aborto Comissão de Cidadania e Reprodução. Tal credencial lhe permite usar sua experiência jornalística de um modo "imparcial" e "objetivo" no debate sobre o aborto.

De fato, o mundo não é um lugar bonito, mas ficaria menos feio sem as idéias nazistas e soviéticas de aborto.

Para quem não teve sua visão deturpada pela propaganda da inverdade, os bebês são uma das únicas coisas belas que ainda restam neste mundo. Como é que dá então para torná-lo mais bonito com a legalização da destruição em massa deles?

Nota:

1) Cf. http://cwfa.org/library/life/1999-12_pp_a-lies.shtml

Quem nos governa?

Mídia Sem Máscara

Casimiro De Pina | 02 Fevereiro 2010
Artigos - Movimento Revolucionário

A liberdade resulta, sempre, de um "governo limitado"; de um Estado de direito, com todos os corolários (separação de poderes, garantia dos direitos fundamentais, primazia da dignidade humana face ao Estado, pluralismo político e ideológico, liberdade económica, controlo da constitucionalidade das leis, etc.) que isso implica.

Após a publicação do meu artigo "Trevas ao meio-dia", tive o prazer de ler um bom apontamento de Daniel Santos, onde este estudioso, ora radicado em Lisboa, faz uma "radiografia" fundamentada das crenças políticas de José Maria Neves durante o triste período do Partido Único.

Santos, apoiando-se na confissão do actual Primeiro-Ministro, prova irrefutável, acaba por me dar mais razão do que eu gostaria de ter: o dr. José Maria Neves, ao contrário da ilusão de alguns distraídos, era um radical de pacotilha (da "linha dura", como diz muito bem Daniel Santos), interessado na implantação de uma "República Popular" em Cabo Verde e um acérrimo defensor do marxismo-leninismo, com todas as credenciais que isso implicava, evidentemente.

Nenhuma operação de "branqueamento de imagem", que é socialmente tão danoso quanto o "branqueamento de capitais", pode apagar essa verdade histórica elementar.

O mais curioso, todavia, não é isso. O mais significativo é que o ilustre José Maria Neves não se afastou, um milímetro sequer, das suas crenças antigas e fundamentais.

Por detrás de um "marketing" pago a peso de ouro, cultiva-se, ainda, a mesma narrativa, a mesma conversinha balofa, o mesmo "estalinismo pidgin" dos bons velhos tempos, sendo este, para além das sombras e aparências, o fio condutor de todos os desacertos da actual governação, incapaz de cumprir as suas próprias metas e de resolver os problemas básicos do país.

O economista Paulo Monteiro Jr., em mais um artigo irretocável, publicado no Expresso das Ilhas (http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/detail/id/14782), tocou num ponto fulcral: "[...] o Governo tem uma técnica de avaliação do seu desempenho: a opinião da comunidade internacional e a comparação tendo como 'benchmark' os países africanos da CEDEAO. Mas a prestigiada agência de 'rating' internacional Standard & Poor's desafinou a orquestra com a descida recente da notação da República de Cabo Verde e com a previsão de que, com a política económica invariante, por volta de 2012 haverá agravamento do risco-país".

Numa sincronia notável, fruto do estudo paciente da realidade socioeconómica e da comparação fria dos números, o dr. Monteiro, que é professor de economia em várias universidades, chega à seguinte conclusão: "O governo do PAICV encalha mais uma vez nos 3D (défice, dívida e desemprego). Mesma lógica, mesma ideologia e resultados semelhantes, como duas gotas de água".

Ou seja: a Neveslândia é a continuação da "democracia revolucionária" por outros meios.

Como se não bastasse, José Maria Neves volta a confundir tudo e a ressuscitar, no recentíssimo XII Congresso do PAICV, os piores mantras do passado, a começar pela ideia peregrina de que a Liberdade e a Democracia "remontam" a...Amílcar Cabral!

Quanto a isto, Daniel Santos, que é versado em Ciência Política, limitou-se a dizer: "É de bradar aos céus!". Disse tudo. Mas sem explicar porquê.

Vale a pena analisar este aspecto. A afirmação de Neves resulta de um disparate: a confusão do conceito de Soberania com a ideia da Liberdade.

Isaiah Berlin dedicou páginas cintilantes ao assunto.

A liberdade resulta, sempre, de um "governo limitado"; de um Estado de direito, com todos os corolários (separação de poderes, garantia dos direitos fundamentais, primazia da dignidade humana face ao Estado, pluralismo político e ideológico, liberdade económica, controlo da constitucionalidade das leis, etc.) que isso implica.

Ora, nada disso existia no pensamento de Cabral. Este nunca defendeu, por exemplo, uma ideia tão cara a Ronald Dworkin: os direitos fundamentais como "trunfos contra a maioria".

Amílcar Cabral, quando muito, esteve na origem da nossa Soberania Nacional, ao gizar uma "luta de libertação" na Guiné. Mas nunca se afastou do "estalinismo pidgin". Num dos seus escritos mais relevantes, Cabral apresenta Lenine, o "pai fundador" dos bolcheviques, como uma espécie de "farol da humanidade".

Para além do interesse académico, esta distinção tem consequências práticas decisivas: se uma pessoa não souber "o que é" a Liberdade, é óbvio que ela não poderá defender esta mesma Liberdade. Este é o drama de José Maria Neves.

É por isso que o seu "bom governo" expulsa dezenas de alunas grávidas dos liceus; é por isso que ele mantém falsificadores de documentos no governo; é por isso que Marisa Morais é ministra da "justiça"; é por isso que ele próprio comete meia dúzia de crimes e julga-se impune; é por isso que suprime garantias essenciais do processo penal, etc., etc..

Mas quem se importa com esses "pormenores" irrelevantes?! The show must go on...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Caindo sem parar

Mídia Sem Máscara

A cultura, a arte, a educação e a ciência no Brasil só se levantarão do presente estado de abjeção quando a máquina governamental que as domina for destruída, quando toda presunção de autoridade dos políticos nessas áreas for abertamente condenada como um tipo de estelionato.

Em editorial do dia 25 último, a Folha de S. Paulo faz as mais prodigiosas acrobacias estatísticas para induzir o leitor a acreditar que a queda do Brasil do 76º para 88º lugar em educação básica, na escala da Unesco, representa um progresso formidável. Não vou nem entrar na discussão. Entre a Unesco, o Ministério da Educação e o jornal do sr. Frias, não sei em quem confio menos. Mas confio nos testes internacionais em que os nossos alunos do curso médio tiram invariavelmente os últimos lugares entre concorrentes de três dezenas de países. Numa dessas ocasiões o então ministro da Educação buscou até consolar-se mediante a alegação sublime de que "poderia ter sido pior". Claro: se ele próprio fizesse o teste, a banca teria de criar ad hoc um lugar abaixo do último. Seríamos hors concours no sentido descendente do termo.

Confio também na proporção matemática entre o número de profissionais da ciência em cada país e o de seus trabalhos científicos citados em outros trabalhos, tal como aparece no banco de dados da Scimago (v. o site do prof. Marcelo Hermes, http://cienciabrasil.blogspot.com/2010/01/citacoes-por-paper-numero-minimo-de.html). Aí vê-se que, em número de citações -- medida da sua importância para a ciência mundial --, os cientistas brasileiros vêm caindo de posto com a mesma velocidade com que, forçada pelo CNPq e pela Capes, aumenta de ano para ano a sua produção de trabalhos escritos. Ou seja: quanto mais escrevem, menos utilidade o que escrevem tem para o progresso da ciência. Em medicina, passamos do 24° lugar, em 1997, para o 36° em 2008. Em bioquímica e genética, no mesmo período, do 19° para o 36°. Em biologia e agricultura, do 18° para o 32°. Em química, do 15° para o 28°. Em física e astronomia, do 18° para o 29°. Em matemática, do 13° para o 28°. Não houve um só setor em que os nossos cientistas não escrevessem cada vez mais coisas com cada vez menos conteúdo aproveitável para os outros cientistas. Em doses crescentes, o que se entende por ciência no Brasil vai-se tornando puro fingimento burocrático, pago com dinheiro público em doses também crescentes. Segundo o prof. Hermes, a coisa começou em 2003, mas piorou muito (ele grafa "muito" com letras maiúsculas) entre 2005 e 2008.

No entanto, de 1999 a 2009 "houve um aumento de 133 por cento no número de artigos científicos publicados em revistas especializadas. O investimento do ministério da Ciência e Tecnologia neste setor duplicou de 2000 a 2007. O investimento privado também aumentou nesse período" (v. http://labjor09.blogspot.com/2009/03/desafios-serem-enfrentados-neste-novo.html).

Obviamente, portanto, o que está faltando não é dinheiro. É o CNPq, a Capes e o governo em geral admitirem que há uma diferença substantiva entre fazer ciência e mostrar serviço para impressionar o eleitorado.

Se essa diferença parece obscura ou inexistente para os atuais senhores das verbas científicas no Brasil (bem como para a mídia que os bajula), fenômeno similar ocorre na educação primária e média, onde o governo dá cada vez menos educação a um número cada vez maior de alunos, democratizando a ignorância como jamais se viu neste mundo.

Mas, esperem aí, coisa parecida também não acontece no ramo editorial, onde a produção crescente de livros para o público de nível universitário acompanha pari passu o decréscimo de QI dos autores que os escrevem? Confio, quanto a esse ponto, na minha própria memória de leitor. Vejam bem. Entre as décadas de 50 e 70 ainda tínhamos, vivos e em plena efusão criativa, alguns dos mais notáveis escritores e pensadores do mundo. Tínhamos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Josué Montello, Antonio Olinto, João Guimarães Rosa, Jorge Andrade, Nélson Rodrigues, Vicente Ferreira da Silva, Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, José Honório Rodrigues, Gilberto Freyre, José Guilherme Merquior, além dos importados Otto Maria Carpeaux, Vilém Flusser, Anatol Rosenfeld e tutti quanti. Que me perdoem as omissões, muitas e volumosas. O Brasil era um país luminoso, capaz, consciente de si, empenhado em compreender-se e compreender o mundo. Agora temos o quê? Fora os sobreviventes nonagenários e centenários, dos quais não se pode exigir que repitam as glórias do passado, é tudo uma miséria só, uma fraqueza, a obscuridade turva do pensamento, a paralisia covarde da imaginação e a impotência da linguagem. "Cultura", hoje, é rap, funk e camisinhas, "educação" é treinar as crianças para shows de drag queens ou -- caso faltem aos pimpolhos as requeridas aptidões gays -- para a invasão de fazendas, "pensamento" é xingar os EUA no Fórum Social Mundial, e "debate nacional" é a mídia competindo com a máquina estatal de propaganda para ver quem pinta a imagem mais linda do sr. presidente da República. Nesse ambiente, em que poderia consistir a "ciência" senão em imprimir cada vez mais irrelevâncias subsidiadas?

Será possível que todas essas quedas, paralelas no tempo e iguais em velocidade, tenham sido fenômenos autônomos, separados, casuais, sem conexão uns com os outros? Ou, ao contrário, compõem solidariamente, como efeitos de um mesmo processo causal geral, o quadro unitário da autodestruição da inteligência nacional?

E será mera coincidência que toda essa corrupção mental sem paralelo no mundo tenha sobrevindo ao Brasil justamente nas décadas em que a intromissão do governo na educação e na cultura veio crescendo até ao ponto de poder, hoje, assumir abertamente suas intenções dirigistas e controladoras sem que isto cause escândalo e revolta proporcionais ao tamanho do mal?

A resposta a essas duas perguntas é: Não, obviamente não. A História não se compõe de curiosas coincidências. A debacle da vida intelectual no Brasil é um processo geral, unitário, coerente e contínuo há várias décadas, e o fator que unifica as suas manifestações nos diversos campos chama-se: intromissão estatal, governo invasivo, controle oficial e transformação da cultura e da educação em instrumentos de propaganda, manipulação e corrupção.

A cultura, a arte, a educação e a ciência no Brasil só se levantarão do seu presente estado de abjeção quando a máquina governamental que as domina for totalmente destruída, quando toda presunção de autoridade dos políticos nessas áreas for abertamente condenada como um tipo de estelionato.

A Segunda Conferência Nacional de Cultura e o Plano Nacional de Direitos Humanos não passam de conspirações criminosas destinadas a agravar consideravelmente esses males que já deveriam ter sido extirpados há muito tempo.

A caminho do totalitarismo

Mídia Sem Máscara

Nivaldo Cordeiro | 01 Fevereiro 2010
Artigos - Governo do PT

O Estado mastodôntico nunca foi tão gigantesco, nunca tributou tanto, regulou tanto e produziu tanto. O governo tenta agora, de todas as formas, se expandir por áreas que ainda estão sob o controle da iniciativa privada, como o de produção de notícias e de comunicação de entretenimento.

Caro leitor, ler os jornais diários com atenção leva-nos inevitavelmente ao desespero. Parece cada vez mais claro que o desfecho das eleições presidenciais que aproximam terá papel decisivo nos destinos da Nação. São cada vez mais evidentes os indícios de que a candidata oficial não pode perder, pois um projeto megalomaníaco e totalitário de poder está em curso e a continuidade do status quo político é imprescindível para que tal projeto seja concluído.

Desesperador mesmo é saber que a única candidatura oposicionista, a de José Serra, se não representa perigo igual por comungar das mesmas crenças e partilhar do mesmíssimo projeto, quando muito serviria para retardar o desfecho, período no qual o país poderá ficar ingovernável, vez que toda a burocracia, os sindicatos, os movimentos sociais, parte considerável dos parlamentares, o Poder Judiciário, ou seja, todas as instâncias de poder estão sob controle da agenda política do partido governante e respondem ao seu comando. Um presidente não pode representar a si mesmo. Para governar teria que levar em conta a realidade de poder, mais ou menos nos termos que vemos agora Barack Obama no EUA, que praticamente abandonou sua agenda de campanha, curvando-se à correlação real de poder. José Serra poderia perfeitamente virar um fantoche das forças petistas, controladoras de fato do Estado.

Com certo desespero li hoje no Caderno de Economia do jornal Estadão que a Petrobrás, sozinha, já movimenta mais de 10% do PIB, em face de sua acelerada expansão dos últimos meses. Some-se a isso a estatização continuada em vários setores feita pelo PT, a última agora com a ressurreição da Telebrás para prestar serviços de banda larga, e teremos o descortino de como caminhou a economia brasileira nos últimos oito anos. O Estado mastodôntico nunca foi tão gigantesco, nunca tributou tanto, regulou tanto e produziu tanto. O governo tenta agora, de todas as formas, se expandir por áreas que ainda estão sob o controle da iniciativa privada, como o de produção de notícias e de comunicação de entretenimento. Para isso, fez a Confecom. Para isso está mobilizando todas as suas forças, pois sabe que é questão de tempo os empresários engajados no setor fazerem oposição aberta e denunciarem o processo revolucionário, como vimos na Venezuela. Aliás, nem sei por que não o fizeram ainda e nem pelo que esperam. Cada dia perdido de luta dá uma vantagem a mais para os inimigos da democracia e da sociedade aberta.

A notícia mais preocupante de hoje trazida pelo Estadão, todavia, é a de que o governo deverá encaminhar projeto de lei ao Congresso Nacional alterando a estrutura do Ministério da Defesa, dando ao ministro atribuições que hoje são competências dos comandantes das Forças. Entre as modificações está a de escolher os oficiais indicados para promoção e a centralização da compra de material bélico. Não preciso dizer que esses dois itens são a essência do poder das Forças. Uma vez uma lei dessas em vigor teremos as Forças Armadas neutralizadas e o caminho aberto para o totalitarismo franco.

Não há muito o que fazer quando os empresários, os oficiais superiores das Forças Armadas, a Igreja e outras expressões da sociedade civil nada enxergam de errado nesse movimento no rumo do totalitarismo. Eu espero o pior.

Followers




O Mídia em Alerta não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e textos, assim como também não se responsabiliza pelos comentários dos seus freqüentadores. O conteúdo de cada artigo e texto, é de única e exclusiva responsabilidade civil e penal do autor.

Mídia Em Alerta © 2008. Design by Mídia em Alerta.

TOPO