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sábado, 3 de abril de 2010

Do Março azul ao Abril vermelho

sábado, 3 de abril de 2010

Alerta Total

Por Arlindo Montenegro

No dia 30 de Março, em cerimônia oficial no QG do Exército, em Brasília, o General Heleno, disse: "Hoje, fora do contexto, é fácil falar sobre abusos na luta contra a subversão. Como deveriam ter agido as forças legais? Na Colômbia, "coincidentemente", a guerra subversiva se iniciou na mesma época da que aqui eclodiu e o Estado colombiano vacilou em tomar decisões duras. O resultado são mais de 40 anos de guerra civil, quase 50.000 mortos..."

Verdade cristalina. E outra verdade é que vencido o terrorismo armado, a nação brasileira pensou por um momento que iria, afinal sacudir e acordar "o gigante adormecido". Mas por obra e graça do General Golbery do Couto e Silva, foi permitida a "valvula de escape" para o ensino do marxismo nos campus universitários. A rendição cultural abriu o espaço para o assassinato da alma brasileira.

Uma síntese da gênese desta implacável guerra mundial contra os princípios e valores da ex-civilização cristã ocidental, é dada numa aula do Pe. Paulo Ricardo, que pode ser vista no endereço - http://video.google.com/videoplay?docid=-7307097961801134682 – nos conduz a Rosa de Luxemburgo, que logo após a tomada do poder pelos bolcheviques na Russia, liderava os comunistas para tentar fazer o mesmo na Alemanha.

Fracassou. Por quê? Marx, Engels, Lenin, Stalin, Trotsky, todos os criadores e líderes do catecismo comunista garantiam que (os trabalhadores) o povo unido, jamais seria vencido. E por que não deu certo na Alemanha de então? A resposta encontrada foi: o empecilho é a moral burguesa. E o que a "moral" burguesa? Princípios e valores, conduta ética, toda a estrutura incutida pela civilização cristã. Logo, moral burguesa = moral cristã.

Então começaram a elaborar a guerra cultural, que substitui nos nossos dias a guerra quente. Em toda a Europa, os comunistas pensantes queimaram as pestanas durante anos, para chegar a Gramsci e na sequência a Althusser, Sartre, Foucault - um sujeitinho que morreu com a peste da Aids e que declarou ter sido a maior emoção da sua vida um quase atropelamento – W. Reich e Marcuse, que disseminaram as idéias da revolução cultural.

A escola inicial destes estudos foi o Instituto de Pesquisas Sociais, conhecido como Escola de Frankfurt, fundada em 1924, responsável pela publicação do primeiro volume das obras completas de Marx e Engels. Esta escola dedicou-se a esmiuçar o funcionamento do pensamento ocidental, estruturado na moral cristã, que todos passaram a denominar "repressiva". E este pensamento chega aos nossos dias como verdadeiro, depois de tanta repetição.

Marcuse fugiu do nazismo para os EUA, onde lançou sua obra, destacando-se "Eros e Civilização". A orientação dada: "faça amor, não faça a guerra", encaminhou na década de 60, parte da juventude americana ao Woodstock do rock, drogas e sexo livre. A "repressão" da moral burguesa (moral cristã) começava a ser superada pela juventude. As drogas, o sexo livre e o rock, abriram caminho para a dissolução da família, divorcio, aborto, feminismo, homossexualismo, camisinha e todas as "liberdades".

Com a “redemocratização” do Brasil, a cultura universitária predominante aderiu abertamente ao que se preparava desde os anos 70: “modernização”, superação da moral burguesa (moral do cristianismo), liberar geral. Foucault ministrou aulas na USP! E puxava um fuminho junto com os alunos! O marxiano Fernando Henrique foi eleito Presidente, um uspiano emérito que foi para o exílio nos EUA e depois no Chile do socialista castrista Allende.

Lá também estava o estudante José Serra, aquele que tinha sido preso num congresso da UNE em Ibiúna, junto com Aldo Rebelo do PC do B, José Dirceu e outros estelares que dão as cartas no atual governo e na política nacional. Desde então as Ongs “pacifistas” internacionais ocuparam o espaço brasileiro, para reduzir a natalidade no primeiro momento, aliciar caboclos e aborígenes, mapear o Brasil interior, traficar com a bio diversidade e influir nos gabinetes decisórios.

O Brasil, aquele país conservador que derramou nas ruas centenas de milhares de donas de casa, estudantes, operários nas marchas da família com Deus pela liberdade, contra a ameaça comunista nos últimos dias do governo Goulart foi virado de ponta cabeça. A produção cultural, a imprensa, a literatura incipiente (pra que ler quando tudo está na tela da rede Globo?) foi totalmente dominada pelo “politicamente correto”, isto é, avacalhar com a individualidade, massacrar pessoas conservadoras e prestigiar o coletivismo, tornar todos iguais em pensamento e ação.

Conseguiram! Com auxílio das novelas e do Roberto Marinho que pediu aos militares: “Deixem meus comunistas em paz”. Ele referia entre outros, o sr. Boni, amigo de infância do Sr. Dias Gomes, comunista de carteirinha, marido da Sra. Janete Clair. O casal dominou o horário nobre das novelas, disseminando em cada uma o ideário da revolução cultural comunista para que todos os videotas pensassem igual: divórcio para desmoralizar o casamento e a família, celibato dos padres (Roque Santeiro) para incutir a repressão da igreja católica.

Hoje temos a educação tomada por livros com mentiras sobre história, alunos que são promovidos por decreto e não por saber, drogas e violência nas escolas, professores amedrontados, greves políticas, profissionais que recebem um canudo mas aos quais é negado o saber, a informação, a formação necessária. Temos um país de analfabetos funcionais, cultura rede globo, marca internacional. Governo e mídia, perversos e mendazes aliados a serviço da nova ordem mundial globalitária.

Arlindo Montenegro é Apicultor.


Postado por Alerta Total de Jorge Serrão às 06:47

Eu devia ter feito medicina, ou Rodolfo Oliveira

Mídia Sem Máscara

A legitimidade de cada sujeito era atestada pelo grau de radicalismo a que ele se permitia em suas ações político-partidárias. Nelson não se sujeitou a isso.

Lembro que, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, a imprensa destacou a expressão usada pelo governo americano para batizar o ataque: Shock and Awe. Shock qualquer um adivinha o que significa. O awe pedia explicação. Quer dizer algo como temor respeitoso, diziam os jornalistas. Três letras que resumiam a tática guerreira.

No velho dicionário que tenho aqui ao lado, awe é "admiração, temor". Essa recordação bilíngüe, sedimentada nas profundezas dos meus longínquos 17 anos, torna agora à superfície. Por qual razão? É que ontem experimentei coisa parecida, e a sensação me pôs a escrever este breve e cândido relato.

Semana passada, telefonei para um amigo dos tempos de faculdade. Rodolfo Oliveira é o nome da peça. Eu tinha um convite: "Grande figura humana, tanto no pessoal como no profissional, escreve um artigo pro Estado. Trinta linhas, o assunto que tu quiser". E ele: "Escrevo sim. Trinta linhas, certo? Te mando em breve etc. e tal". Estava combinado. No dia seguinte, nada do Rodolfo. Nem no outro. Tampouco no dia que vem depois do outro. Eu já achava que o rapaz esquecera ou desistira. Cobrei novamente, num tom grave, para causar medo. Ele desculpou-se, explicou que lhe faltavam tempo e conexão à internet. Tudo bem. Ontem, enfim, o texto apareceu.

Conhecendo o talento do cidadão, eu aguardava o escrito ansiosamente (creio inclusive que a demora foi uma velha jogada publicitária). Vejam aí que escritor habilidoso. Roubou telepaticamente minha intenção de falar do mestre Nelson Rodrigues e fez miséria. E tem a minha idade, o desgraçado. Ao fim da leitura, eu encontrava-me no estado da admiração, do temor respeitoso, do assombro. Após alguns instantes de contemplação literária, liguei para o autor: "Recebi o artigo. Seu ***, me sinto deprimido, desanimado". Ele achava graça.

É isso, amigos. A verve rodolfiana me humilhou. Eu nunca escreverei com tamanha autoridade. Foi ali, ao telefone, em meios às ponderações de Rodolfo Oliveira ("Você tá exagerando, rapaz"), que me veio a melancólica constatação: eu devia mesmo era ter feito medicina. Minha conta bancária estaria multiplicada por mil. E em todos os ambientes e ocasiões as pessoas apontariam: "Olha lá o doutor Bruno Pontes!" Convenhamos, soa bem.

* * *

Ora, vamos ouvir o Saldanha!

Por Rodolfo Oliveira, jornalista

Não há autor que me tenha trazido ventos tão oportunos sobre aqueles anos do que o Nelson. Os anos a que me refiro são os que fecham a década de 1960 e o Nelson ao qual me reporto é o Rodrigues. Outro dia, ao reler uma seleção de crônicas do jornalista, constatei que, sem dúvidas, o Nelson Rodrigues foi um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos. Aqueles anos, principalmente o badalado 1968, Nelson os têm todos nas crônicas que escreveu para o jornal O Globo. Para mim, então, que sou de uma geração acostumada a ouvir de professores desiludidos com o fracasso do comunismo o quão duro foi aquela época e et cetera e tal, a coisa toda se torna ainda mais fantástica.

O cronista transitou no olho do furacão daqueles anos em que todos tinham que, de alguma forma, pagar um certo tributo ao radicalismo político para se livrar do estigma de conservador, ou, vá lá, de ser um "neutro", pecado então capital. A legitimidade de cada sujeito era atestada pelo grau de radicalismo a que ele se permitia em suas ações político-partidárias. Nelson não se sujeitou a isso; a impressão que se tem ao lê-lo é que o pernambucano caminha incólume - sem prescindir de graça e elegância, algo que deveria magoar profundamente os idealistas de primeira viagem e os grosseiros estudantes país afora - através da radicalização que parecia querer "virar o mundo de pernas para o ar", nas palavras do escritor Ruy Castro.

Em tempos distantes, à época da universidade, eu próprio convivi com algumas viúvas do comunismo totalitário. Alguns desses sujeitos falavam em União Soviética e do comunismo chinês com um amor comovente, desses amores que ecoam como choro de bêbado abandonado (e, de fato, alguns pareciam estar sempre ébrios). Sujeitos estranhos, gastos, tediosos, e, no mais das vezes, confusos. Mentalmente, eu os colocava frente a frente com Nelson: eles, de foice e martelo nas mãos, a arrancar paralelepípedos das ruas para arremessá-los contra as vitrines dos bancos, e o Nelson, de pé em uma padaria, a tomar um café, com um radinho de pilha ao ouvido acompanhando atentamente o comentário de João Saldanha sobre o último jogo do Fluminense, ao mesmo tempo em que procura nos bolsos da camiseta o maço de cigarros.

- Nelson, Nelson, acaba de estourar uma revolução na França! É a nova Revolução Francesa! Estão pondo aquele país abaixo!, berra o alarmista.

- Ah, você se refere àquela agitação infantil? Ora, vamos ouvir o Saldanha!, responde um impaciente Nelson.


O artigo de Rodolfo Oliveira foi publicado no jornal O Estado.

Bruno Pontes é jornalista - http://brunopontes.blogspot.com

A tática humanitária e a estratégia terrorista

Mídia Sem Máscara

Em síntese, estamos ante uma ofensiva terrorista e uma campanha de propaganda orientada a quebrar a vontade de luta do Estado contra as guerrilhas, pela via política.

A libertação do sargento Pablo Emilio Moncayo e do soldado Josué Daniel Calvo não é um ato de humanidade, tampouco mérito de "Colombianos e Colombianas pela Paz", e menos ainda uma ação unilateral que mostre boa-vontade das FARC. Nada disso. É outro episódio da "tática humanitária", planejada pela guerrilha, dentro de sua calculada estratégia terrorista.

Três objetivos estão por trás da parafernália humanitária. Primeiro, avançar no reconhecimento das FARC como força beligerante. As libertações serão aproveitadas para intimar os candidatos presidenciais a realizar o chamado "acordo humanitário", sobre a base de que o novo governo as gradue como uma organização política alçada em armas e não como um grupo terrorista.

Nessa linha, desejam esgrimir o "acordo" para permitir que "países amigos" intervenham na "saída negociada", o qual lhes outorga de entrada o status político e um tratamento de igual para igual com o Estado. Sonham com o chamado "Grupo Contadora", acordado por Hugo Chávez e Iván Márquez em novembro de 2007. Com a participação de vários dos governos de esquerda no hemisfério, quiseram integrar um conjunto de países destinado a reconhecer as FARC como beligerantes e pressionar o governo da Colômbia a uma negociação.

O segundo propósito é posicionar a "saída negociada ao conflito social e armado" na campanha presidencial. Como no passado, querem que os candidatos emulem em matéria de segurança e paz, a partir das proposições das FARC. Para consegui-lo, repetem a manobra que realizaram em março de 2006. Nessa oportunidade, dois agentes da polícia foram libertados no Putumayo em instância do candidato Álvaro Leyva. A firmeza cidadã em rechaçar os seqüestradores fez a ação fracassar.

Romper essa firmeza contra o crime, dividindo os cidadãos entre partidários e contraditores do acordo humanitário e do diálogo com as guerrilhas, é o terceiro objetivo. Buscam obter legitimidade, demonstrar que são atores políticos e pressionar o governo mobilizando setores da população a favor da negociação e da "solução política". É a paz como palavra de ordem de agitação e mobilização.

Com a tática humanitária e a palavra de ordem do diálogo, pretendem transferir a responsabilidade dos seqüestros e da violência guerrilheira ao governo e aos candidatos presidenciais que não se alinhem com as demandas farianas. Os assinalamentos de que Uribe, antes de finalizar seu período, deve celebrar o "acordo humanitário", procura "provar" que ele foi o obstáculo e sublinhar a necessidade de um novo governo que "aposte na paz e não na guerra", certamente, que não será um que continue com a Política de Segurança Democrática, senão que aceite seu desmonte como ponto de partida para um processo de paz. Um governo de apaziguadores.

A guerrilha repete o mesmo estribilho. Sempre, antes das eleições presidenciais, a organização terrorista reclama negociação, assinala que está disposta a abordar em uma mesa de diálogo a "solução das causas que deram origem ao conflito" e que requer-se um presidente que tenha real vontade de resolver os problemas dos colombianos como requisito para pactuar a paz. Todos esses não são mais do que recursos táticos empregados no marco de seu plano estratégico, não para alcançar a paz, senão para escalar a guerra.

Do mesmo modo ocorre com as ações terroristas. Cada final e começo de um novo governo está marcado por atentados e massacres. O "menino-bomba" que morreu em El Charco e o carro-bomba que deixou 9 mortos em Buenaventura, procuram demonstrar que a Política de Segurança Democrática fracassou, e que seria inevitável a negociação com as FARC. Com isso também querem manipular, através do medo, a vontade dos cidadãos.

Embora, em princípio, os atentados fortaleçam o rechaço às FARC, Alfonso Cano e Mono Jojoy sabem que, se são capazes de aumentar suficientemente a freqüência e elevar o número de vítimas, podem afetar a vontade dos cidadãos. Daí que as Nações Unidas tenham razão quando advertem sobre a possível execução de mais atos de violência.

Em síntese, estamos ante uma ofensiva terrorista e uma campanha de propaganda orientada a quebrar a vontade de luta do Estado contra as guerrilhas, pela via política.

Embora Álvaro Uribe tenha lhes devolvido o balão e neutralizado temporariamente a manobra fariana, ao aceitar a possibilidade de um acordo humanitário, a atitude responsável seria que os candidatos rechacem o acordo de forma unânime; exijam a libertação imediata e sem condições de todos os seqüestrados e restrinjam qualquer diálogo à decisão irrevogável da guerrilha de renunciar à violência e de desmobilizar-se. Assim se acaba com o aproveitamento, por parte das FARC, das contradições e com a utilização do acordo humanitário e do diálogo como uma tática a serviço de uma estratégia de guerra.


* - Professor de Análise do Terrorismo - Universidade de Rosário

Fonte:
http://www.facebook.com/l/af8d4;
http://politicayseguridad.blogspot.com

Tradução: Graça Salgueiro

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O bem como instrumento do mal

Mídia Sem Máscara

Olavo de Carvalho | 31 Março 2010
Artigos - Religião

A Igreja não tem porque pedir perdão pelo mal que lhe foi infligido desde dentro por um grupo de psicopatas sequiosos de poder e riqueza - mas também não tem por que tentar salvar as aparências de uma organização que fez do bem o instrumento do mal.

Que, num mundo degradado pela arrogância da modernidade, os Legionários de Cristo sejam uma organização nominalmente destinada a reviver a experiência do catolicismo tradicional, eis algo que só torna ainda mais graves os crimes praticados tanto pelo seu fundador quanto pelos seus demais líderes.

Entre o tradicionalismo aparente dos Legionários e as deformações modernistas do catolicismo, a relação é exatamente a mesma que Sto. Agostinho enxergava entre o orgulho e os demais pecados capitais: todos os vícios, dizia ele, se apegam ao mal, para realizá-lo; só o orgulho se apega ao bem, para extingui-lo.

Modernistas e esquerdistas em geral pregam o erro e a mentira, deformam a doutrina e a liturgia, fazem tudo às avessas do que a Igreja fez por dois milênios. Marcial Maciel e seus asseclas apregoam a doutrina autêntica, seguem os ritos fielmente e, vistos de fora, se parecem muito com os bons católicos de antigamente -- só que reduzem tudo isso a uma casca, a uma camuflagem a serviço do crime e da maldade. Aqueles atacam a Igreja desde fora, despindo-a ostensivamente de tudo quanto a orna e protege ante os olhos do mundo; estes preservam-lhe a vestimenta e a fisionomia, enquanto a ferem diretamente no coração.

O dano que Maciel e sua quadrilha fizeram ao catolicismo chega até a superar, sob certos aspectos, o efeito global de tantos golpes acumulados ao longo de mais de cem anos. Sob o ataque dos inimigos externos ou dos heréticos e agentes infiltrados, a Igreja não só preservava sua dignidade mas resplandecia ainda mais pela glória do martírio. Agora ela é forçada a humilhar-se ante o mundo, pedindo desculpas pelo mal que inimigos bem camuflados não lhe fizeram desde fora, mas desde o seu círculo mais íntimo, sob a proteção imbecil de um Papa, João Paulo II, que não quis enxergar a verdade em tempo e acabou protegendo os criminosos em vez de socorrer as vítimas.

Se fazer a Igreja pagar pelos crimes de seus traidores já é uma injustiça monstruosa, ainda mais intoleráveis são as tentativas de atenuar o escândalo, reduzindo tudo aos pecados pessoais de um sacerdote e salvando as aparências da organização que ele criou.

O pedido de desculpas distribuído pelo atual superior da ordem, Álvaro Corcuera, é um primor de cinismo e desconversa. De um lado, reduz tudo a delitos sexuais já velhos de quatro décadas, nada dizendo da perseguição judicial movida mais recentemente, sob a liderança do próprio Corcuera, para intimidar e calar as vítimas e resguardar a sacrossanta imagem pública do criminoso. De outro, lança todas as culpas sobre um indivíduo isolado, como se o vasto concurso de crimes que ele praticou tivesse sido possível sem a cumplicidade de seus assessores mais próximos e, mais ainda, sem a peculiar estrutura de que ele dotou a organização, fazendo dela uma perfeita máquina de dominação e acobertamento.

Com toda a evidência, o que diferencia os Legionários de todas as demais ordens religiosas não é apenas a conduta pessoal do seu fundador: é a concepção organizacional inteira da entidade, planejada para servir a objetivos que nada têm a ver com os seus fins nominais, servindo a estes só na medida em que eram úteis àqueles.

Para quê uma disciplina religiosa precisaria acrescentar, aos votos tradicionais de pobreza, obediência e castidade, um herético e extravagante "voto de segredo", se não fosse para esconder, desde o início, algo que se tencionava fazer escondido?

Para quê uma ordem religiosa católica teria de adotar para seus noviços e fiéis leigos, além dos métodos pedagógicos e disciplinares antigos e consagrados, certas técnicas de controle comportamental originadas no movimento anticristão da "Nova Era" e em laboratórios de engenharia social empenhados em construir a civilização mundial do Anticristo?

Para quê uma ordem religiosa precisaria instituir, além das normas usuais de respeito e obediência, o culto idolátrico de seus líderes, proclamados levianamente "santos" à primeira vista, sem o menor exame crítico, em efusões de emocionalismo histérico coletivo que blasfemam a noção mesma da santidade?

Para quê uma ordem religiosa precisaria praticar em grande escala a imposição de vocações forçadas, supostamente reveladas pelo Espírito Santo aos líderes da organização e em seguida impingidas a jovens atônitos como um mandato dos céus ao qual eles jamais ousariam dizer "não"?

Por que uma ordem religiosa precisaria devotar tanto esforço ao aliciamento de leigos ricos e à constituição velocíssima de um patrimônio bilionário?

Por que uma ordem religiosa teria de se infiltrar em paróquias para dominá-las, desrespeitando as jurisdições dos vigários e constituindo-se ilegitimamente em autoridade superior à das próprias arquidioceses, ao ponto de que algumas destas, nos EUA, se vissem obrigadas a proibir todo contato entre suas paróquias e a organização invasora? Que raio de catolicismo existe numa gramsciana "ocupação de espaços" praticada contra católicos por uma militância soi disant católica?

Não, os Legionários - que mais própriamente se chamariam os Milionários -- não são uma ordem religiosa normal, manchada apenas por um indivíduo maligno que por casualidade, por mera coincidência, aconteceu de ser o seu fundador.

Os Legionários são a própria mentalidade perversa desse fundador, transfigurada em máquina mundial de aliciamento, dominação psíquica, manipulação da conduta e acobertamento de crimes.

A Igreja não tem por que pedir perdão pelo mal que lhe foi infligido desde dentro por um grupo de psicopatas sequiosos de poder e riqueza, mas também não tem por que tentar salvar as aparências de uma organização que fez do bem o instrumento do mal. Esse mal deve ser exposto em toda a sua grandeza sinistra, deixando claro que não foi praticado "pela" Igreja, mas contra ela. Simplesmente não é possível preservar, ao mesmo tempo, a dignidade da Igreja e a reputação dos Legionários. Não creio que seja isso o que Bento XVI quer, mas é claro que tanto entre os inimigos da fé quanto na alta hierarquia da própria Igreja há muita gente interessada em dar a impressão de que ele quer precisamente isso.

***

N. B. -- Para informações mais precisas e até mais contundentes do que as publicadas na grande mídia, leiam Jason Berry e Gerald Renner, Vows of Silence. The Abuse of Power in the Papacy of John Paul II (New York, Free Press, 2004) e J. Paul Lennon, Our Father, who Are in Bed. A Naïve and Sentimental Dubliner in the Legion of Christ (edição do autor, 2008; procurem em www.bookfinder.com), e examinem o material dos sites http://www.vowsofsilencefilm.com/ e http://regainnetwork.org/.

Diário do Comércio, 1 de abril de 2010.

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