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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Comunismo e narcotráfico

Mídia Sem Máscara

Quando as FARC começaram a ser chamadas de narco-guerrilheiras, essa mesma esquerda reagia indignada, como se fosse uma armação midiática dos conservadores ou, por que não, do "imperialismo". Os fatos, porém, foram avassaladores, tornando-se indubitáveis.

O que mais surpreende na discussão atual sobre as relações entre as FARC e o narcotráfico, em suas repercussões no "socialismo bolivariano" e em tendências do PT e nos ditos movimentos sociais, é a dissociação que se procura estabelecer entre a idéia de socialismo/comunismo e o tráfico de drogas. No fundo, o que se procura defender é a idéia pura do socialismo/comunismo como se fosse uma idéia de tipo religioso, imune aos acidentes de sua história ou de seu percurso de realização.

As FARC foram historicamente consideradas como um grupo guerrilheiro, que retomava as posições que foram do maoísmo e do castrismo, com a ocupação de áreas ditas liberadas no campo. Eram, nesse sentido, consideradas herdeiras do marxismo-leninismo em suas versões chinesa e cubana, estando, assim, legitimadas junto à opinião pública de esquerda. Eram recebidas em fóruns internacionais, companheiras do PT na fundação do Foro de São Paulo nos anos 90 e elogiadas no Brasil até muito recentemente.

O governo Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, durante o I Fórum Social Mundial, em 2001, recebeu-as no Palácio Piratini. As relações do Padre Medina -- espécie de representante internacional dessa organização revolucionária -- com o PT são também sobejamente conhecidas.

Contudo, à medida que as atividades de tráfico de drogas foram sendo cada vez mais de domínio público, surgiu uma espécie de reação que se aproximaria da "indignação" moral, como se isso fosse uma questão de princípio da esquerda. No início desse processo, quando as FARC começaram a ser chamadas de narco-guerrilheiras, essa mesma esquerda reagia indignada, como se fosse uma armação midiática dos conservadores ou, por que não, do "imperialismo". Os fatos, porém, foram avassaladores, tornando-se indubitáveis.

Aí começou um outro processo, o de dissociar a idéia de socialismo/comunismo do narcotráfico, como se uma fronteira tivesse sido transposta, algo historicamente novo, inconcebível. Ora, a pergunta que cabe é a seguinte: será que estamos diante de algo historicamente novo para esse tipo de esquerda?

Na tradição socialista/comunista, áreas liberadas, como as das FARC na Colômbia, são áreas onde impera a lei da força, a lei do partido, em um completo desrespeito a algo como igualdade de todos ou estado de igualdade jurídica. Rege a violência dos chefes, que não medem meios para a realização de seus objetivos.

Do ponto de vista discursivo, trata-se do melhor dos mundos, o do caminho da igualdade futura entre todos os homens. Do ponto de vista real, trata-se do império da violência, a ausência completa de liberdades, as aulas de doutrinação, a fome e os mais diferentes tipos de violência cometidos pelos chefetes e pelos líderes principais.

A revolução chinesa é um bom precedente histórico. Nas áreas "liberadas", sob controle de Mao, vigorava a expropriação dos camponeses, reduzidos à mais completa miséria, à fome, às epidemias e à violência do partido que de tudo se apropriava. Os privilégios da hierarquia comunista iam das mulheres à disposição dos chefes aos alimentos extraídos de agricultores famintos.

Tudo era legitimado em função do objetivo "socialista" maior. Os que discordavam eram "pequenos burgueses", "direitistas", "agentes do imperialismo" e assim por diante. Os revolucionários de ontem tornavam-se os inimigos de hoje.

Jon Haliday e Jung Chang, em seu livro Mao: a História Desconhecida, fornecem preciosas informações sobre o que foi a dominação totalitária maoísta. Em particular, nos anos de 1941-1942, Mao - precisando de recursos para armamentos, em uma de suas zonas "liberadas"- recorreu ao comércio e cultivo de ópio.

Foi um amplo e florescente negócio, patrocinado por ele mesmo, em nome, evidentemente, da causa comunista. A área cultivada de ópio foi estimada em 12 mil hectares das melhores terras da região.

Para o seu círculo mais próximo, Mao apelidou a operação de "Guerra do Ópio Revolucionária". Assim, transplantando a situação para os dias atuais, podemos também ter a "cocaína revolucionária", tão em voga nas áreas controladas pelas FARC e abertamente cultivada na Bolívia "bolivariana" de Evo Morales.

Tais fatos foram ocultados para não denegrir a causa, a ideia de socialismo/comunismo. Assim, em nome dessa mesma ideia, milhões de pessoas foram exterminadas, sendo que qualquer contestação era imediatamente identificada a uma ação contrarrevolucionária.

Sob o domínio de Evo Morales, as razões apresentadas são "culturais", como se se tratasse somente do consumo de um chá inofensivo, quando a produção é muito maior do que as necessidades do consumo interno desse país.

Já há várias suspeitas de que a ditadura castrista esteve ou mesmo está comprometida com o tráfico de drogas. Generais revolucionários já foram acusados por essas atividades e executados supostamente por essas razões.

Assim funcionam os regimes totalitários. Patrocinam uma atividade e, para livrar-se de seus oponentes internos, dentro do próprio partido e do exército, os acusam de desviantes. É a forma mesma comunista de operação dos expurgos, modo de exercício do terror, para deixar todos os súditos subjugados, evitando qualquer contestação, qualquer abertura. Quando o regime castrista cair, saberemos a verdadeira história.

Enquanto isso, os seus defensores continuam defendendo a ideia da pureza socialista/comunista, modo de sustentar suas próprias posições, com cobertura midiática inclusive.

O problema é que, nos casos da China e de Cuba, a verdade apareceu ou aparecerá décadas depois, quando o estrago do ponto de vista de formação da opinião pública e dos jovens em particular já tiver sido feito. O que, porém, incomoda atualmente a esses mesmos setores é que estamos presenciando ao vivo, contemporaneamente aos fatos, a realização dessa ideia do socialismo/comunismo.

A indignação é pela contemporaneidade, pois essa afeta a opinião pública atual. Eis porque todos correm atrás da dissociação entre o socialismo/comunismo e o narcotráfico.


Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRS

Olavo de Carvalho, 10 anos

Mídia Sem Máscara

Segundo ele, a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual estão inseparavelmente ligados, ligação esta que é perdida quando o conhecimento só é considerado seguro quando é reduzido ao academicismo.

Quem me acompanha já notou a influência que o filósofo Olavo de Carvalho tem sobre mim. Confirmo esta impressão: muito do que sei hoje aprendi com ele. Ele é uma das minhas grandes inspirações na vida intelectual.

Ontem lembrei-me que já o acompanho há 10 anos. 10 anos! Uma década já se passou, e para mim foi como se tudo começasse num dia desses. Uma década de aprendizado e de transformação intelectual, majoritariamente positiva. Antevejo que mais uma década de "olavismo" ainda virá para mim. E talvez outra, e outra...

Não vou mais me alongar sobre o assunto. O que cabe dizer agora eu já disse, há quase 1 ano atrás, no penúltimo texto do antigo blog, que republico aqui, já que nada há que acrescentar:

Sobre Olavo de Carvalho

Li o primeiro texto de Olavo de Carvalho em Março ou Abril de 1999. Na altura eu tinha 16 anos, cria-me cultíssimo e, embora fosse mezzo direitista, por meus conhecimenos de humanidades e principalmente por minha formação familiar, na prática era influenciado por várias teses esquerdistas que me eram impingidas por meus professores de colégio (como a de que o nazi-fascismo era uma corrente de direita, a de que a ditadura militar brasileira foi de uma violência comparável à da ditadura hitlerista, a de que a violência nas cidades e nos campos é causada pela pobreza, a de que a Inquisição foi uma das maiores monstruosidades que já existiram, a de que a Igreja Católica estava repleta de "podres" ao longo da sua história, a de que Mao Tsé-Tung foi, afinal de contas, responsável por um grande desenvolvimento na China; a de que o PSDB é um partido de direita, tal como o PMDB e o antigo PFL; etc).

Era um texto sobre a Revolução de 31 de Março de 1964, que encerrava uma homenagem feita pelo Clube Militar aos 35 anos da Redentora. O folheto fora-me dado por meu pai, que o recebera de um amigo coronel da reserva do Exercito, e narrava o episódio do ponto de vista militar. Era a primeira vez que eu lia algo como aquilo, e esta leitura chacoalhou profundamente minha visão sobre o regime militar brasileiro. O texto de Olavo de Carvalho encerrava o encarte e também me marcou, não só por elogiar certos aspectos do regime mas também por afirmar que, no Brasil, não existe uma direita politicamente organizada. O artigo não o identificava, por isso pensei tratar-se de um coronel ou algo assim.

No ano seguinte, ao revirar umas edições passadas da revista Época, defrontei-me com o artigo Longe de Berlim, fora do Mundo e o nome do autor logo atiçou minha memória. Surpreendi-me ao vê-lo chamado filósofo. Era a primeira vez que via um brasileiro das humanidades com tais posturas antiesqurdistas. Começei a acompanhá-lo com mais regularidade até que, no dia 24 de Julho de 2000, lendo uma reportgem sobre o comunismo numa edição da citada revista, leio logo a seguir A velha alucinação. Foi tiro e queda: bastante ácido, inteligente e honesto, este artigo do filósofo é um golpe pesado contra o comunismo e impressionou-me deveras. Foi um poderoso contra-ataque ao que eu aprendia na escola. Foi a partir daí que passei a acompanhá-lo seriamente.

E lá estava eu, lendo seus artigos todas as semanas em Época. Meses depois, numa livraria, encontrei acidentalmente O Futuro do Pensamento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Comprei-o imediatamente e nele descobri que Olavo de Carvalho é muito mais do que um crítico do comunismo; é um autêntico intelectual, nas boas acepções do termo. Foi o primeiro de muitos: O Jardim das Aflições, O Imbecil Coletivo I, Aristóteles em Nova Perspectiva, e outros. Pouco depois descobri seu site na Internt e isso foi um deleite intelectual para mim. Não só em quantidade mas também em qualidade, tudo aquilo me impressionou positivamente. Era mesmo muita coisa boa o que ali havia e há.

Através de Olavo de Carvalho conheci outros sites interessantes como O Indivíduo, WND, MSM, Lew Rockwell ou o Seventh Seal. Foi ele quem me apresentou autores como Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Eric Voegelin, Ludwig von Mises, Roger Scruton, Ângelo Monteiro e Bruno Tolentino. Foi com Olavo que conheci bem temas como a paralaxe cognitiva, a dialética erística, a revolução gramsciana, a Religião Comparada, o Foro de São Paulo, o politicamente correto e o mundialismo. Digo, enfim, sem nenhum receio, que a minha vida intelectual (algo mais que aprendi com ele) deve imensamente ao trabalho de Olavo de Carvalho há uns 9 anos.

A filosofia de Olavo de Carvalho centra-se na defesa da consciência individual frente à tirania da colectividade, sobretudo quando baseada numa ideologia dita "científica". Segundo ele, a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual estão inseparavelmente ligados, ligação esta que é perdida quando o conhecimento só é considerado seguro quando é reduzido ao academicismo. Sustentando que a principal guarida da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas antigas tradições religiosas, o filósofo de Campinas analisa os problemas da cultura atual à luz destas tradições.

Embora eu reconheça nele algumas faltas que se tornaram mais claras para mim nos últimos anos - brigas nem sempre necessárias, desrespeito a alguns importantes membros da Igreja, uso de uma linguagem nem sempre recomendável em seu programa True Outspeak, algum feitichismo intelectual que complica a vida, negativismo em relação ao Brasil, etc - penso que o saldo final de sua obra é e será positivo, já que seu trabalho não está ainda concluído. Penso que, se houver uma renovação e mesmo um robustecimento da intelectualidade brasileira nas próximas décadas, essa renovação em muito deverá ao trabalho do filósofo Olavo de Carvalho.

Fábio Barreto edita o blog Bios Theoretikos - http://biostheoretikos2.blogspot.com/

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Anatel: produzindo mais distorções

Mídia Sem Máscara

No sofrível ambiente brasileiro da telefonia e da internet, ambos os serviços são caros e de péssima qualidade. Ao invés de defender a ampla concorrência, o estado defende os concorrentes. A ampla concorrência seria alcançada pela completa desburocratização do setor.

Por causa da intervenção estatal, não faltarão temas a este articulista. Todo dia tem novidade. Todo dia tem um pedaço a menos de liberdade para os cidadãos. E o povo aplaude.

Diz um brocardo jurídico que aos particulares permite-se tudo o que não for defeso em lei, enquanto que aos agentes públicos só é permitido praticar atos em estrita observância à lei. Todavia, a cada novo raiar do sol, cada mínimo aspecto da vida dos particulares vem se tornando ou proibida ou obrigatória, em muito devido justamente pela canetada daqueles que deveriam agir em regime de estrita vinculação.

Nesta semana, a Anatel decidiu interromper mais um aspecto da liberdade de comerciar, por abrir mais uma das frentes do governo contra a "venda casada". Agora, estão proibidas as ofertas de planos conjuntos de telefonia com internet, por exemplo.

Sustenta a nota da Anatel que "as cautelares não têm a intenção de restringir a liberdade de preços praticados pelas autorizadas, uma vez que o Serviço de Comunicação Multimídia é prestado em regime privado, sendo o preço livre, consoante o disposto no art. 129 da Lei nº 9.472, de 16 de julho de 1997". Entretanto, em um ambiente puramente capitalista, o efeito benfazejo da competição não se produz tão somente pela liberdade de praticar o preço amarrado de uma unidade de um bem ou serviço.

Em um ambiente puramente capitalista, todas as práticas comerciais, as conhecidas e aquelas ainda por serem inventadas, têm por fim a busca por maior eficiência econômica. Tais arranjos podem encontrar na redução dos custos o seu alvo, ou simplesmente possibilitar a permanência das atividades, em um ambiente de demanda reduzida. Seja como for, todas elas buscam eficiência e viabilidade, e acima de tudo, estão sob o crivo dos seus implacáveis juízes, os consumidores.

Em um ambiente de franca liberdade econômica, nenhum cartel tem como se sustentar permanentemente contra a vontade dos consumidores. Só para utilizar o caso mais ilustrativo para os brasileiros, que é o dos postos de gasolina, um acordo assim não tem como ser igualmente benéfico para todos os participantes. Um deles pode estar localizado em uma área mais suburbana, cujos clientes sejam mais escassos e mais pobres. Outro pode ter alguma vantagem no transporte do produto, ou ainda dispor de produção própria, no caso do álcool. Um terceiro ainda pode ser simplesmente mais competitivo, a oferecer gratuitamente aos seus clientes outros benefícios, como lavagem grátis, e por isto visa uma maior fatia do mercado. Sempre que um deles perceber que está suportando com prejuízo o lucro de algum concorrente, o acordo estará desfeito.

Cartéis, joint-ventures, parcerias, trustes, verticalizações, terceirizações, pools, consumação, parcelamentos, financiamentos, leasings e outras formas de produção, gerenciamento e vendas são inovações que têm por mérito uma maior eficiência econômica. Elas permitem a redução de custos ou a viabilidade das transações.

Hoje todos compramos um microcomputador com muita facilidade, mas os primeiros equipamentos eram tão caros que não podiam ser vendidos e nem sequer eram alugados, de modo que os serviços consistiam no tratamento dos dados dos clientes por encomenda. Era o jeito que os tornava economicamente atraentes.

Atualmente, para a maioria dos modelos de automóveis, todas as versões, mesmo as de "entrada", incluem itens como ar-condicionado e direção hidráulica. Será este um caso de venda casada? E se eu encontrar na prateleira do supermercado um kit completo que inclua a massa do macarrão, o molho e um saquinho de queijo ralado, isto será também um caso de venda casada?

Coloco estes meros exemplos acima apenas para que o leitor compare e verifique como todas estas incriminações dos atos livres e voluntários dos cidadãos são sempre categorizadas de forma parcial. No fim das contas, pratica cartel, consumação ou venda casada aquele a quem determinado agente público acusa.

Porém, o usuário recorrente de tais práticas é o próprio estado, e sempre visando não uma maior eficiência econômica, mas tão somente para gozar do privilégio de extorquir à vontade os seus cidadãos. Se dois ou três donos de postos de gasolina praticam preços parecidos (no que pese o fornecedor ser um só: a Petrobras, e também abstraindo-nos do fato de que o maior componente do preço dos combustíveis são tributos), eles poderão ser presos e expostos à execração pública; poderão inclusive ser filmados e exibidos na tv, em horário nobre, em flagrante ato de combinação de preços. Todavia, quando se trata de governos, aí o termo "cartel" se transforma em "guerra fiscal", e uma legislação "harmonizadora" vem logo em socorro do princípio da não-competividade.

Venda casada? Comprar gasolina misturada com álcool não é venda casada? Consumação? Pagar o INSS para receber um indesejado auxílio-reclusão (só e somente só porque não pretendo ser um bandido) não é consumação?

No sofrível ambiente brasileiro da telefonia e da internet, ambos os serviços são caros e de péssima qualidade. Ao invés de defender a ampla concorrência, o estado defende os concorrentes. A ampla concorrência seria alcançada pela completa desburocratização do setor, mas foi imposto à nação um modelo artificial de concorrência controlada, em que seletos participantes gozam de um quase-monopólio institucional.

Diante deste cenário, não é de surpreender que façam da população os seus reféns, e neste aspecto, programas de venda casada podem, sim, significar não a meta por maior eficiência econômica, mas sim uma forma de tungar ainda mais os clientes que não dispõem - e nem podem dispor - de outras opções.

Constatemos, assim, como um ato de intervenção sempre leva a outro, posterior, criado com a intenção de aliviar os efeitos do precedente, mas por si só capaz de gerar outras distorções que demandarão novos atos futuros de intrometimento. Isto não pára. É uma roda-viva.

Tudo sobre a KGB

Mídia Sem Máscara

Steve LeVine | 29 Julho 2010
Artigos - Movimento Revolucionário

Na entrevista "Tudo o que você queria saber sobre a KGB mas tinha medo de perguntar", Boris Volodarsky fala da prisão de espiões russos nos EUA e da forma como trabalham.

Boris Volodarsky foi treinado como funcionário do GRU Spetsnaz, o braço de inteligência do exército soviético. Quando eu o conheci, enquanto fazia uma pesquisa bibliográfica em Londres, em 2007, ele estava escrevendo The KGB's Poison Factory [A Fábrica de Veneno da KGB], seu próprio livro sobre o fascínio de Moscou pelo assassinato por envenenamento. Com seu conhecimento e compreensão enciclopédicos da KGB e sua história, ele está terminando um novo livro, entitulado The Orlov KGB File [O Arquivo Orlov da KGB]. Eu pedi a Voladarsky que respondesse algumas perguntas sobre a prisão, semana passada, de 10 russos "ilegais", agentes adormecidos plantados sem disfarce diplomático nos Estados Unidos. Suas respostas são as que se seguem:

No que o sr. diria que as pessoas mais se equivocam a respeito dos ilegais acusados nos EUA?

Como a maioria das pessoas, incluindo alguns jornalistas que escrevem longos artigos comentando as prisões, não tem nenhum conhecimento sobre as técnicas de espionagem da inteligência russa, ou sobre a história da inteligência em geral, as atividades dos membros deste grupo parecem uma coleção bizarra de ações esquisitas, parecendo um filme ruim sobre os malditos russos. Mas muitas coisas que aparecem até em filmes ruins infelizmente são verdade. Sim, os russos gostam de usar chapéus de peles, beber vodka, comer caviar, levar garotas bonitas para a sauna. E, fora algumas inovações modernas, como redes ad hoc, transimssões oscilantes e a esteganografia, as velhas técnicas batidas de espionagem, em grande parte, permanecem as mesmas. São boas e normalmente funcionam bem (exceto em casos em que já se está sendo monitorado - então nada funciona).

Nem o público nem os escritores percebem que isto NÃO é um filme - um grupo muito grande de agentes e observadores bastante experientes do FBI gastou uma soma bastante considerável de dinheiro dos contribuintes e bastante tempo para expor um grupo VERDADEIRO de operadores russos disfarçados, operando descaradamente nos Estados Unidos, com a certeza absoluta de que ninguém nunca os pegaria, por causa de sua educação, treinamento, da tradição de seu serviço inteligência, e a crença de que a riqueza do país por trás deles é muito superior ao FBI. Eles se esqueceram de que o FBI de 2010 é muito diferente da Agência de 1950. Todos os 11 acusados (com Christopher Metsos - sem dúvida um oficial do Diretório S - desaparecido) são profissionais treinados, cuja tarefa era penetrar na sociedade americana. É a primeira vez que um grupo tão grande de ilegais foi posto a descoberto. Normalmente havia um ou dois, no máximo, embora eu tenha o registro de um grande número de operações ilegais documentadas nos Estados Unidos, durante pelo menos os último 80 anos. Deve-se acrescentar que muito poucos deles, como Fisher/Abel e Molody/Lonsdale, foram bem-sucedidos. Mas nós provavelmente só conhecemos 50 por cento das operações que foram montadas e das pessoas empregadas.

É possível que esta seja simplesmente uma operação de araque de alguém em Moscou que, como alguns comentaristas têm sugerido, não entende qual tipo de informação está abertamente disponível? Em outras palavras, os ilegais são coisa do passado, ou continua havendo algo de valor real a ser ganho com os ilegais hoje?

Esta não é, de jeito nenhum, uma operação de araque. Ela consumiu muito tempo, esforço e dinheiro e foi toda feita seguindo uma cartilha. Ela sempre é feita deste jeito. Repito, eu poderia listar várias dúzias de exemplos em que, depois do treinamento, os ilegais soviéticos foram mandados primeiro para a Europa, depois quase sempre para o Canadá, e depois realocados para os Estados Unidos.

A respeito da informação. Em primeiro lugar, os ilegais não estão aqui para coletar dados de inteligência. O papel deles é monitorar importantes agentes já recrutados nas estruturas do governo, aqueles que tem acesso a informações secretas (CIA, FBI, outros serviços de inteligência, forças armadas, cientistas, pessoal da Pesquisa e Desenvolvimento, especialistas de Institutos Tecnológicos, etc), ou eles podem exercer influência (sobre jornalistas ou políticos). O serviço de inteligência externa russo (SVR) tem TODA a informação que está disponível a partir de fontes abertas. A coisa sempre foi assim, mas nunca é o bastante. O que a inteligência russa está lutando para conseguir são informações secretas (políticas, econômicas, industriais, militares, etc.) e para ter a chance de influenciar tomadas de decisões e a opinião pública a favor da Rússia. É por isto que os agentes são recrutados ou infiltrados em alvos sensíveis ou politicamente importantes.

O papel dos ilegais é triplo: agir como "interruptores" entre fontes importantes e o Centro (diretamente ou pela estação SVR); servir como caça-talentos, encontrando candidatos em potencial para um cultivo posterior de inteligência e um possível recrutamento (um processo bastante longo e complexo onde os ilegais só agem no estágio inicial); e para estabelecer os contatos certos que possibilitariam a outros operadores de inteligência (membros da estação SVR) ou ao Centro (visitando funcionários da inteligência sob diferentes disfarces, jornalistas, diplomatas ou cientistas encarregados pelo SVR) conseguir dados de inteligência e/ou receber favores em que o Centro tenha interesse. Os ilegais também têm várias tarefas técnicas, como alugar alojamentos que poderiam ser usados como bases seguras, encontrar lugares para desova e coleta de materiais de informação, planejar operações de ataque, como assassinatos, que também serão executadas por outros ilegais (mas de um departamento diferente do mesmo diretório). Eles também coletam amostras de documentos que poderiam ser usados em outras operações secretas, e mantêm Moscou atualizada sobre alguns procedimentos padrões (comprar uma casa, arranjar um emprego, registrar uma empresa, e assim por diante).

Os ilegais não são coisa do passado, eles sempre foram usados em larga escala. O último caso conhecido foi no Canadá, quando 'Paul William Hampel' foi preso em meio ao caso Alexander Litvinenko (novembro de 2006). Como eu procuro provar em The KGB Poison Factory, a própria operação Litvinenko foi obra de um ilegal russo. Seguramente, os ilegais são usados em outros países com ambientes difíceis de contra-inteliência, como a Grã-Bretanha, por exemplo, mas raramente em países "dóceis", como a Austrália ou a Finlândia.

Os ilegais podem ser usados tanto para infiltração comercial e institucional quanto para infiltração governamental ou militar, correto?

Como mencionei acima, muito raramente, pois, normalmente, esta não é a tarefa deles. Mas, em muitos casos, seus filhos, cidadãos americanos natos, são preparados para infiltrações. Neste grupo, somente Mikhail Semenko parece ter feito tentativas de infiltrar instituições sensíveis, tentando conseguir um emprego lá (o Conselho Americano de Política Externa, por exemplo). Mas houve um caso em que um ilegal soviético serviu como embaixador da Costa-Rica na Itália. Sua história detalhada está em The Orlov KGB File, meu próximo livro. Em tese, uma infiltração institucional ou comercial pelos ilegais é possível - na década de 1960, "Rudi Herrmann" foi incumbido de se infiltrar no "Hudson Institute".

Os ilegais também podem estar presentes em outras nações, como na Guerra Fria?

Certamente, e outras nacionalidades podem ser usadas, não somente os russos. Há muitos exemplos, especialmente com os Alemães Orientais.

Em sua opinião, por que eles foram presos neste momento?

Duas razões óbvias: em primeiro lugar, Anna Kuschenko-Chapman sentiu que estava lidando com um agente disfarçado do FBI, e ligou para seu mentor na comissão russa da ONU; em segundo lugar, 'Richard Murphy' ia partir para Moscou no domingo com, alguns acreditam, dados importantes de inteligência.

A administração Obama está numa "nova fase" com a Rússia. O Presidente Medvedev tinha acabado de deixar os EUA. Há uma nota distoante aqui?

De maneira alguma. O Serviço de Segurança funciona de acordo com a situação operacional, independente do que está acontecendo na Casa Branca e o que o Presidente pensa sobre ela.

Anna Chapman atraiu a maior parte da atenção pública, entre todos os acusados. Ela é uma espiã séria?

Tudo indica que Anna Vasilievna Kuschenko começou a colaborar com o SVR pouco depois de terminar o ensino médio, aos 16 anos, em 1998, antes de entrar na universidade. O pai dela é funcionário da KGB-SVR, possivelmente da Linha N (suporte ilegal), então esta seria uma coisa normal. Depois de um ano, ela matriculou-se em um curso na Universidade da Amizade do Povo de Moscou, que é o centro universitário de muitos agentes e funcionários da inteligência russos e soviéticos. Durante seu segundo ano, em 2001, ela foi para Londres (extremamente atípico) e rapidamente pegou um jovem inglês ingênuo em uma boate. Ela o levou para cama em seu segundo encontro, e, pelo relato dele de outra fonte sobre o seu uso de brinquedos sexuais, parece ter sido especificamente treinada na arte do amor. Ela lhe disse o quanto o amava, derramou-se em lágrimas ao partir para Moscou e rapidamente arrumou um convite, então ele veio e eles se casaram em março de 2002 sem as formalidades de praxe.

Depois de se estabelecer em Londres (mesmo sendo estudante em tempo integral em Moscou), ela trabalhou em vários lugares por pouco tempo e em pequenos empregos, servindo de assistente pessoal em um fundo especulativo, e como secretária em uma empresa aérea particular. Ela descartou o marido depois de três anos, tendo ido morar com um jovem playboy francês que a levava para clubes privados caros em Londres, onde ela conseguiu os contatos certos. Ele também a aconselhou a abrir uma empresa imobiliária na internet. Em 2004, ela se graduou magicamente na universidade(sem estudar lá e ainda vivendo em Londres), voltou para Moscou em 2007, abriu lá uma empresa de internet daquelas, depois abriu uma empresa similar em Nova Iorque, em fevereiro de 2010, usando $1 milhão que ela recebeu de um fundo de investimento do Kremlin. Quase que imediatamente ela começou a mandar relatórios para seu mentor de Nova Iorque, usando seu laptop. É uma baita de uma história interessante, digna de se escrever muito mais.

Tradução: Leonardo Arnheim, do blog Dextra.

Para a revista Foreign Policy, edição de 6 julho de 2010.

http://oilandglory.foreignpolicy.com/posts/2010/07/06/everything_you_wanted_to_know_about_the_kgb_but_were_afraid_to_ask

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