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sexta-feira, 1 de abril de 2011

A lógica do lobo

Mídia Sem Máscara

Percival Puggina | 01 Abril 2011
Artigos - Governo do PT

O consumidor faz as contas e sabe que se tornou vantajoso fazer turismo no exterior. É mais barato lá do que aqui. E não por culpa dele, consumidor. Digam-lhe os lobos o que disserem.

Não é a conduta do governo que causa estranheza. O governo segue a lógica do lobo, cujas razões nunca incluem o ponto de vista do cordeiro. Quando convém aos lobos, as águas do rio sobem encostas. Não há novidade nisso. O mundo é assim desde que pela primeira vez, num grupo humano primitivo, certo grandalhão decidiu que mandaria no pedaço. Surpreendente é que numa sociedade civilizada, em pleno século 21, tantos setores da mídia reproduzam para seus clientes - nós, os cordeiros - a retórica brutamontes do lobo.

O governo Dilma anunciou, com semitons de generosidade, que a tabela do Imposto de Renda seria corrigida em 4,5%, representando, esse gesto de benevolência, "renúncia fiscal" de R$ 1,6 bilhão no atual exercício. O Google registra cerca de 20 mil reproduções dessa informação. "E daí?", perguntará o leitor. E daí que estamos perante exemplo típico do que descrevi no parágrafo anterior. Que renúncia fiscal ocorre quando o governo corrige (inclusive em percentual inferior ao da inflação medida) a tabela do IR? A quase totalidade dos trabalhadores e aposentados do país, uma vez ao ano, tem reposto seu poder de compra mediante reajuste de salário ou provento em percentual mais ou menos equivalente ao da inflação ocorrida. Sobre o que recebe, paga imposto de renda. Se a tabela do tributo não é reajustada em conformidade com a inflação, o que ocorre pode ser definido de duas maneiras distintas. Numa, o governo está tributando a inflação pois obriga o trabalhador a pagar mais imposto pelo mesmo poder de compra. Noutra, ele está, por via indireta, ou seja, por omissão, elevando a alíquota. Portanto, falar em renúncia fiscal é um desaforo oficial.

Vamos expor isso de outra forma. Suponha, leitor, que dona Dilma suba nos tamancos e proclame que acabou, para sempre, a "renúncia fiscal". Não haverá mais qualquer reajuste na tabela do IR das pessoas físicas. Sabe qual a consequência? Ao cabo de 15 anos, admitindo-se uma inflação de 4,5% a.a., o governo terá tomado, por essa via tributária - é a aritmética que o prova - metade do poder de compra que a sociedade detinha no primeiro ano de aplicação da norma. Havendo inflação, congelar a tabela do IR é tão esbulho quanto congelar salários.

A alcatéia, contudo, não se satisfaz com meros artifícios retóricos. Sofismas não engordam o caixa. Então, anuncia o governo - e os complacentes reproduzem ipsis literis - que, para compensar a tal "renúncia fiscal", a alíquota do IOF incidente sobre compras feitas no exterior será aumentada. Pronto! Acabou a generosidade. A alcatéia dá de mão na tesoura. Lobo do século 21 não come cordeiros. É mau negócio. Acaba com o rebanho. Mais lucrativo é tosquiá-lo periodicamente. E retorna-se ao sofisma: "os brasileiros estão gastando muito no exterior". De fato, do jeito que a coisa vai, gastaremos, neste ano, algo como US$15 bilhões fora do país. Na perspectiva do lobo, o brasileiro, esse perdulário, não pensa no bem da pátria. Em vez de gerar empregos aqui dentro, vai gerar empregos lá fora.

O sofisma entra pela janela e chuta a razão pela porta. Até as pedras sabem que os brasileiros estão gastando no exterior porque está mais barato gastar lá do que aqui. Simples como isso, porque nossa moeda ficou excessivamente valorizada frente ao dólar. Aliás, as compras de viagem fora do país são parcela pequena na coluna das nossas despesas externas. Sobre o prejuízo maior, perguntem à indústria nacional. Perguntem aos exportadores de manufaturados. Muito mais do que os uísques e perfumes comprados em Rivera, ou as bugigangas de Miami, são as massivas importações de manufaturados feitas pelo mercado brasileiro que afetam negativamente nossa balança comercial e danificam o mercado de trabalho do país.

O consumidor não sofisma. Não vive de discurso. O consumidor faz as contas e sabe que se tornou vantajoso fazer turismo no exterior. É mais barato lá do que aqui. E não por culpa dele, consumidor. Digam-lhe os lobos o que disserem. Se o governo não controla seus próprios gastos e precisa buscar dinheiro no mercado, elevando juros, atraindo dólares e derrubando a cotação dessa moeda, é ele e não a sociedade que está causando prejuízo grave às contas e à economia nacional.

O ABC de Alejandro Peña Esclusa

Mídia Sem Máscara

Alejandro Peña Esclusa, em entrevista, fala do calamitoso estado atual das instituições venezuelanas, e reitera a denúncia: "O sistema judiciário venezuelano está absolutamente corrompido e a serviço do chavismo. Não existe nenhuma possibilidade de um julgamento justo para um perseguido político."

Alejandro Peña Esclusa é, desde há oito meses, outro preso político. Desses que o governo nega por ação e boa parte dos dirigentes opositores, por omissão. Porém, o certo é que ele está preso em El Helicoide, estranha estrutura construída por um ditador, esquecida pela democracia e destinada pelo regime chavista para armazenar ali a dissidência. Nessa rotunda lúgubre e deprimente, feia e inóspita, ele passa todas as horas de todos os dias, contando tão-somente com um tempo de sol a cada quinzena e o pouco generoso espaço de uma cela onde se apinham os livros, uma minúscula mesinha de madeira, a cama e ele. Dois dias na semana recebe visitas, porém sua ocupação mais importante é manter o espírito elevado. Estas são suas reflexões para os leitores de "ABC de la Semana".

Quais eram suas atividades antes de cair preso?

Eu exercia minhas funções como Presidente de UnoAmérica, uma extraordinária plataforma que agrupa 200 organizações latino-americanas, sobre a qual vale a pena dedicar uma reportagem. Ademais, presido uma das associações venezuelanas mais valiosas e combativas, Fuerza Solidaria.

Quanto ao plano intelectual, escrevia muito - e continuo fazendo - por ser autor de livros, articulista, correspondente de um jornal argentino, e membro da Academia Brasileira de Filosofia. Já estando no cárcere, fui nomeado diretor do Inter-American Institute.

Qual é o delito de Alejandro Peña?

Formalmente me acusam de conspirar contra o Estado. Porém, meus verdadeiros "delitos" são me dedicar durante 17 anos a denunciar Chávez verbal e penalmente, por seus nexos com as FARC, e criar uma corrente política continental distinta, do Socialismo do Século XXI.

Que alegações fundamentais sua defesa mantém?

Basicamente três: não existem testemunhas contra mim, porque nenhuma aparece no processo; a invasão da minha casa está cheia de irregularidades e os funcionários plantaram evidências (presumíveis explosivos); e tanto o promotor quanto o juiz seguem ordens do oficialismo.

Quais elementos estão presentes neste processo que revelariam um fundo falso político?

O governo leva anos desenvolvendo uma campanha de calúnias contra mim, para me incriminar e para dar credibilidade a qualquer montagem que houvesse contra mim. O próprio Chávez participou dessa campanha. Antes de invadirem minha casa, deixei gravado um vídeo advertindo de que o governo me envolveria falsamente em um delito. O semanário "La Razón" advertiu sobre a incursão policial em minha residência. É absurdo que eu guardasse explosivos em minha casa sabendo que iam invadi-la.

O senhor pressentia que sua luta derivaria em prisão? Imaginava que seria vítima de imputações semelhantes?

Eu estava absolutamente seguro de que Chávez me poria preso. Desde há dois anos adverti a todos os meus familiares e amigos, dentro e fora do país, de que se preparassem para meu encarceramento. Para o governo era inaceitável que eu continuasse denunciando internacionalmente o Socialismo do Século XXI e que continuasse fazendo acusações contra Chávez, como a que apresentei ante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Que possibilidades tem um réu, sob este regime, para provar sua inocência e sair em liberdade? Bons advogados e argumentos firmes garantem o devido processo neste país?

O sistema judiciário venezuelano está absolutamente corrompido e a serviço do chavismo. Não existe nenhuma possibilidade de um julgamento justo para um perseguido político.

USA-SE O SISTEMA JUDICIÁRIO PARA PERSEGUIR POLÍTICOS

O que sente alguém privado de liberdade quando se inteira de que a presidente do máximo tribunal do país manifesta não estar de acordo com a divisão de poderes?

Em meu caso, não me surpreende nada. Pelo contrário, é positivo que ela mesma o confesse publicamente, para que não reste nenhuma dúvida de que na Venezuela não existe democracia nem independência de poderes.

Que papel desempenha a pressão da sociedade para o objetivo de fazer justiça na Venezuela?

A única forma de recuperar a democracia, as liberdades e a independência do sistema judiciário é que as pessoas pressionem, mediante protestos pacíficos. Do contrário, o sistema judiciário vai continuar sendo utilizado para perseguir opositores políticos, e não para combater a delinqüência que tem açoitado o país.

Como o senhor avalia a atividade dos jovens universitários em prol de conseguir a liberdade dos presos políticos?

Eles foram, sem dúvida, os que conseguiram as libertações de alguns prisioneiros políticos e demonstraram que o sistema judiciário acata ordens do Executivo. Também ensinaram aos venezuelanos como enfrentar o regime de Chávez: com caráter e com determinação, arrancando desta tirania os direitos que nos correspondem.

Que lições o senhor foi aprendendo durante estes 8 meses na prisão?

Creio que o cárcere é para um dirigente político o que o treinamento é para um desportista. Serve para se enriquecer, se fortalecer, se preparar e crescer internamente. Sinto-me mais forte, mais orgulhoso e mais venezuelano do que nunca. O cárcere serviu para identificar-me plenamente com a nossa história e com o povo venezuelano, mas também para conhecer melhor os problemas do nosso país.

O que significa uma prisão política para uma sociedade e quê dimensões tomou na Venezuela?

A vil perseguição que tem havido contra os prisioneiros políticos venezuelanos é um exemplo do que pode acontecer a qualquer um. A demissão dos empregados da PDVSA, o fechamento de RCTV, a lista Tascón, as inabilitações, os prisioneiros políticos, os exilados, os julgamentos abertos, a perseguição contra operadores financeiros e construtores, são todas mostras de um mesmo modelo totalitário no qual ninguém está a salvo.

Ainda há gente que questiona a existência de presos políticos no país... O que o senhor crê que motiva esta postura?

O governo não reconhece a existência de prisioneiros políticos porque equivale a dizer que vivemos em uma ditadura. E alguns dirigentes e opositores não querem mencionar o tema porque parecem querer se dedicar só aos assuntos eleitorais.

O senhor se considera um "político preso"?

Eu sou o único dos prisioneiros políticos que se dedica única e exclusivamente à política, à qual entreguei 27 anos de vida.

Por que há presos cujos casos são "negociáveis" e outros que qualificaram-se como "inviáveis"?

O governo não quer reconhecer que existem presos políticos, quer dizer, vítimas inocentes que foram injustamente encarceradas por motivações políticas. Até agora soltou alguns porque, depois de estarem presos por muitos anos, lhes correspondiam benefícios processuais ou porque adquiriram imunidade parlamentar. Aos demais não os quer libertar porque se nega a admitir que seus julgamentos estavam trapaceados e que, em muitos casos, os verdadeiros culpados estão no governo. O ministro El Aissami não quer falar do meu caso porque foram seus próprios funcionários, a mando do delegado David Colmenares, que plantaram os supostos explosivos na escrivaninha da minha filha mais nova.

O senhor acredita que o fato de que alguns presos tenham sido postos em liberdade mostra disposição ao diálogo por parte do governo, ou debilidade ante a pressão mantida por parte de setores sociais dispostos a mantê-la?

Este governo não dialoga nem dialogará. Só cede quando está contra a parede. O governo percebeu que os jovens em greve de fome estavam inspirando os venezuelanos a se libertar desta ditadura, e decidiu soltar alguns presos para baixar a pressão.

"RECEBI A SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL"

Há quem tenha manifestado estar convencido de que Alejandro Peña é um preso do governo cubano. O senhor sente dessa maneira?

Sim, é assim. Penso que o governo de Chávez é uma simples sucursal do regime cubano. Portanto, todos os males que estamos padecendo são produto da subordinação de nosso governo aos cubanos, incluindo a montagem contra mim.

Seu movimento, UnoAmérica, mais enfocado à denúncia no exterior e/ou sua postura política mais radical que a de outros atores da oposição frente ao governo venezuelano, são fatores que poderiam explicar a menor ressonância interna de sua situação com respeito à de outros presos?

Até agora, dentro da Venezuela meu caso não teve a repercussão desejada porque não pertenço ao "establishment" político. Isso deve-se a que levo dez anos dizendo que a única maneira de conseguir uma mudança de governo na Venezuela é invocando os Artigos 328, 333 e 350 da Constituição. E essa posição se choca com a postura oficial dos partidos políticos. Espero que os eventos do Oriente Médio sirvam para mudar a falsa opinião que algumas pessoas têm sobre a efetividade e a legitimidade do 350. Há quem prefira esperar até as eleições de 2012 para resolver os problemas do país, porém creio que é nossa obrigação considerar outras opções pacíficas e constitucionais. Sobretudo tendo em conta o desespero das pessoas, as violações dos direitos humanos, a destruição da economia, a perseguição contra gente inocente e tantos outros graves problemas que a Venezuela sofre.

Foi importante o respaldo internacional em seu caso?

Os apoios internacionais que recebi em razão de minha detenção arbitrária são impressionantes: vinte e três parlamentares europeus, a bancada opositora do Congresso da Bolívia, a Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Congresso dos Estados Unidos, o Governo do estado de Alabama, o Vice-Governador do estado de São Paulo, entre outros. Também pronunciaram-se instituições como o Inter-American Institute, a Associação Justiça e Concórdia (que agrupa 400 advogados argentinos), a Academia Brasileira de Filosofia, a Associação B'Nai B'Rith do Rio de Janeiro, a União Cívica Democrática de Honduras, o Partido Convergência da Espanha, a Fundação Um Milhão de Vozes contra as FARC, a Federação Verdad Colombia, além de acadêmicos, parlamentares, políticos, intelectuais e prelados da América Latina, Estados Unidos e Europa.

Como o senhor sente a solidariedade por parte dos venezuelanos?

Dói profundamente ao povo venezuelano a injustiça que se comete com os prisioneiros políticos. As manifestações populares que temos recebido são impressionantes e comovedoras, e se expressam de muitas maneiras, que vão desde cartas e mensagens, até as orações diárias pedindo por nossa liberdade. Creio que os jovens grevistas deram uma grande lição política de compromisso, de valentia e de solidariedade humana.

O que é mais grave para um preso: o encerro ou o esquecimento?

Definitivamente o esquecimento, mas esse não é o nosso caso. As pessoas simples gostam e lembram-se de nós todos os dias.

Que perspectivas o senhor vê na luta dos venezuelanos para recuperar a democracia?

Sou muito otimista. Este governo derruba-se e logo recuperaremos as liberdades e a democracia. O povo está despertando e estão surgindo novos líderes do seio da sociedade. Entretanto, é necessário continuar lutando duro para obter o triunfo.

Como se vive o tempo na prisão? Como afeta a dinâmica familiar a separação forçada?

No meu caso eu estava preparado psicologicamente para viver em meu "irmão cárcere", como o chamo. Estudo, leio, escrevo, pratico esporte, ensino karatê a meus companheiros e rezo todos os dias. O cárcere é muitas vezes um estágio necessário na formação integral de um líder político, e assim o assumi. Na realidade, estou mais preocupado pelo sofrimento de minha família do que pela minha própria situação.


Fonte: Analitica.com

Tradução: Graça Salgueiro

Até parece mentira...

Mídia Sem Máscara

Octávio dos Santos | 01 Abril 2011
Internacional - Estados Unidos

... Que Barack Obama, mais de dois anos depois de ter tomado posse, ainda não tivesse pago todas as suas dívidas de campanha eleitoral. Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Hank Johnson, representante da Geórgia pelo Partido Democrata, tenha perguntado se a ilha de Guam, no oceano Pacífico, poderia "virar-se" após nela serem instalados mais militares norte-americanos e as suas famílias. Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Barack Obama tenha apoiado o fim da proibição da caça à baleia. Mas sim, é mesmo verdade. ... Que Steven Chu (este, sim, "mereceu ganhar o seu Prémio Nobel") tenha permitido que o Departamento de Energia consider(ass)e a hipótese de regular as características e a utilização de torneiras de chuveiro. Mas sim, é mesmo verdade. ... Que Michael Wolfensohn, autarca em Nova Iorque pelo Partido Democrata, tenha chamado a polícia ao saber que dois rapazes de 13 anos vendiam bolos num parque sem licença. Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Barack Obama não tivesse ainda contactado seis dos membros do seu gabinete durante os primeiros dois anos do mandato. Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Dennis Kucinich, representante do Ohio pelo Partido Democrata, tenha processado a cafetaria do Congresso - e exigido uma indemnização de 150 mil dólares! - por lá ter quebrado um dente ao trincar um caroço de azeitona que não era suposto estar numa salada. Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Nancy Pelosi tenha alterado e aumentado uma resolução do Partido Democrata que elogia e louva... ela própria. Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Barack Obama, mais de dois anos depois de ter tomado posse, ainda não tivesse pago todas as suas dívidas de campanha eleitoral. Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Charles Schumer, senador de Nova Iorque pelo Partido Democrata (e com ordens para chamar sempre "extremistas" aos republicanos), tenha afirmado que os três ramos do governo são "a Casa, o Senado e o Presidente". Mas sim, é mesmo verdade.

... Que Frank Lautenberg, senador de Nova Jersey pelo Partido Democrata, tenha afirmado que os republicanos "não merecem as liberdades que estão na Constituição". Mas sim, é mesmo verdade.

Octávio dos Santos, português, é jornalista e edita o blog Obamatório.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Individualistas e coletivistas

Mídia Sem Máscara

Olavo de Carvalho | 31 Março 2011
Artigos - Cultura

Os termos "individualismo" e "coletivismo" não expressam princípios de ação lineares e unívocos, mas dois feixes de tensões dialéticas, que se exteriorizam em contradições reais cada vez que se tente levar à prática, como se isto fosse possível, uma política linearmente "individualista" ou "coletivista".

Conforme anunciei, vão aí algumas notas para a próxima rodada do debate com o professor Aleksandr Duguin, ideólogo político russo pertencente à escola contemporânea de geopolítica russa comumente designada por "neo-eurasianismo". (Este debate, em forma de texto, pode ser acompanho em http://debateolavodugin.blogspot.com) . Comecei minha mensagem inaugural apontando a assimetria entre um indivíduo isolado, que fala apenas em seu próprio nome, e o líder que expressa a vontade política de um partido, de um movimento, de um Estado ou de um grupo de Estados.

O prof. Duguin viu aí a cristalização simbólica da oposição entre individualismo e coletivismo, Ocidente e Oriente. Essa não me parece ser uma aplicação correta das regras do simbolismo, que tanto ele quanto eu aprendemos em René Guénon.

Um simbolismo genuíno deve respeitar as fronteiras entre distintos planos de realidade, em vez de confundi-los. Onde o prof. Duguin viu um símbolo, eu vejo apenas uma metáfora, e aliás bastante forçada.

O individualismo como nome de uma corrente ideológica é uma coisa; outra completamente diversa, sem nenhuma conexão com ela, é a posição de um ser humano na base, no meio ou no topo da hierarquia de comando. Desta não pode se deduzir aquela, nem ver na posição social de um indivíduo um "símbolo" da sua identidade ideológica real ou suposta. Caso contrário, todo escritor sem suporte numa organização política seria necessariamente um adepto do individualismo ideológico, incluídos nisso os fundadores do nacional-bolchevismo, Limonov e Duguin, no tempo em que começaram, solitários e ignorados do mundo, a especular suas primeiras ideias. Ser um indivíduo isolado é uma coisa; ser um individualista é outra, quer tomemos a palavra "individualista" no sentido de hábito moral ou de convicção ideológica. A dedução implícita no "simbolismo" que o prof. Duguin acredita ter encontrado é um perfeito non sequitur. O simbolismo autêntico, segundo René Guénon, deve ir para além e para cima da lógica, em vez de ficar abaixo das suas exigências mais elementares.

Mais ainda, em vez de colar à força na minha lapela o distintivo de adepto do individualismo ocidental, o prof. Duguin poderia ter perguntado o que penso a respeito. Afinal, a liberdade de expressão num debate não consiste apenas no poder que cada um dos debatedores tem de responder "x" ou "y" a uma questão dada, mas também, e eminentemente, na sua possibilidade de rejeitar a formulação da pergunta e recolocar a questão toda desde seus fundamentos, conforme bem lhe pareça.

Na minha modestíssima e individualíssima opinião, "individualismo" e "coletivismo" não são nomes de entidades históricas substantivas, distintas e independentes, separadas como entes materiais no espaço, mas rótulos móveis que alguns movimentos políticos usam para carimbar-se a si próprios e a seus adversários. Ora, a ciência política, como já afirmei, nasceu no momento em que Platão e Aristóteles começaram a entender a diferença entre o discurso dos vários agentes políticos em conflito e o discurso do observador científico que tenta entender o conflito (que mais tarde os agentes políticos aprendessem a imitar a linguagem da ciência não invalida em nada essa distinção inicial). Logo, nossa principal obrigação num debate intelectualmente sério é analisar os termos do discurso político para ver que ações reais se insinuam por baixo deles, em vez de tomá-los ingenuamente como traduções diretas e francas de realidades prontas.

Com toda a evidência, os termos "individualismo" e "coletivismo" não expressam princípios de ação lineares e unívocos, mas dois feixes de tensões dialéticas, que se exteriorizam em contradições reais cada vez que se tente levar à prática, como se isto fosse possível, uma política linearmente "individualista" ou "coletivista".

Desde logo, e para ficar só nos aspectos mais simples e banais do assunto, cada um desses termos evoca de imediato um sentido moralmente positivo junto com um negativo, não sendo possível, nem mesmo na esfera da pura semântica, separar um do outro para dar a cada um dos termos uma conotação invariavelmente boa ou má.

O "individualismo" sugere, de um lado, o egoísmo, a indiferença ao próximo, a concentração de cada um na busca de seus interesses exclusivos; de outro lado, sugere o dever de respeitar a integridade e a liberdade de cada indivíduo, o que automaticamente proíbe que o usemos como mero instrumento e coloca portanto limites à consecução de nossos propósitos egoístas.

O "coletivismo" evoca, de um lado, a solidariedade, o sacrifício que cada um faz de si pelo bem de todos; de outro lado, evoca também o esmagamento dos indivíduos reais e concretos em nome de benefícios coletivos abstratos e hipotéticos que em geral permanecem hipotéticos e abstratos para sempre.

Quando vamos além da mera semântica e observamos as políticas autonomeadas "individualistas" e "coletivistas" em ação no mundo, notamos que a duplicidade de sentido embutida nos termos se materializa em efeitos políticos paradoxais, inversos aos bens ou males subentendidos no uso desses termos como adornos ou estigmas.

O velho Hegel já ensinava que um conceito só se transmuta em realidade concreta mediante a inversão do seu significado abstrato.

Essa transmutação é uma das mais notáveis constantes da história humana.

O coletivismo, como política da solidariedade geral, só se realiza mediante a dissolução das vontades individuais numa hierarquia de comando que culmina na pessoa do guia iluminado, do Líder, do Imperador, do Führer, do Pai dos Povos. Nominalmente incorporando na sua pessoa as forças transcendentes que unificam a massa dos joões-ninguém e legitimam quantos sacrifícios a ela se imponham, essa criatura, na verdade, não só conserva em si todas as fraquezas, limitações e defeitos da sua individualidade inicial, mas, quase que invariavelmente, se deixa corromper e degradar ao ponto de ficar abaixo do nível de integridade moral do indivíduo comum, transformando-se num doente mental desprezível. Hitler explodindo de fúria ou rolando no chão em transes de delírio persecutório, Stalin deleitando-se de prazer sádico em condenar à morte seus amigos mais íntimos sob a alegação de crimes que não haviam cometido, Mao Dzedong abusando sexualmente de centenas de meninas camponesas que prometera defender contra a lubricidade dos proprietários de terras, mostram que o poder político acumulado nas mãos desses indivíduos não aumentou de um só miligrama o seu poder de controle sobre si mesmos, apenas colocou à sua disposição meios de impor seus caprichos individuais à massa dos súditos desindividualizados. A solidariedade coletiva culmina no império do "Indivíduo Absoluto" enaltecido por Julius Evola. E esse indivíduo, que a propaganda recobre de todas as pompas de um enviado dos céus, não é jamais um exemplo de santidade, virtude e heroísmo, mas sim de maldade, abjeção e covardia. O absoluto coletivismo é o triunfo do Egoísmo Absoluto.

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