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domingo, 5 de junho de 2011

Um autor extraordinário contra a política de perfeição

Mídia Sem Máscara

Bruno Garschagen | 04 Junho 2011
Artigos - Cultura

Qualquer utopia política exige um corpo de ideias que a converta publicamente numa manifestação plausível e viável de um desejo positivo e específico para estabelecer um futuro perfeito.

Lembro-me bem quando, anos atrás, cheguei até aquele autor valioso que me faria entender alguns aspectos cruciais da relação do indivíduo em sociedade e, por extensão, com a política e com a economia. E, principalmente, como ambas poderiam ser tanto poderosos instrumentos de promoção do bem-estar e da prosperidade como ignominiosos mecanismos de promoção da igualdade e, portanto, de injustiças.

No primeiro caso, as pessoas assumiam o risco pelo sucesso e pelo fracasso de seus empreendimentos e suas atividades estavam inseridas dentro de um enquadramento institucional que as protegia e preservava um ambiente de confiança desenvolvido ao longo do tempo. No segundo exemplo, a elite de um poder acreditava na possibilidade de se planejar centralmente as relações entre os indivíduos e toda a diversidade e complexidade de suas ações, seja na economia, seja na política.

Esse controle era um trabalho em progresso, interminável, que ou era realizado pela elaboração em série de leis e atos administrativos ou pela violência - ou por ambas. Porque é materialmente impossível para um determinado grupo acompanhar todas as variáveis de comportamento e todas as informações dispersas na sociedade com o objetivo de direcioná-la para uma finalidade específica. No primeiro caso, entendia eu, uma ideologia política era dispensável; no segundo caso, imprescindível.

O tal autor que mencionei me mostrou que os atos individuais geravam consequências intencionais e não-intencionais e a gravidade e amplitude de seus efeitos eram proporcionais à dimensão de seu objetivo individual e social. Quanto mais abstrato era o objeto em específico que se desejava afetar, mais imprevisíveis eram os danos produzidos. O exercício de abstração diluía as pessoas numa massa amorfa generalizada, sem rosto, sem nome, sem vontade e desejos próprios, sem capacidade de escolher e de agir. Um grupo, ao contrário de uma pessoa, não sente dor, necessidades, paixões, e por isso é possível forjar uma moral única e supostamente superior de forma a justificar as intervenções e ataques, que, ao fim e ao cabo, atingirá as pessoas, uma por uma.

Nesse sentido, a ideologia cumpre o papel de instrumento justificador dos atos e legitimador de suas consequências. Qualquer utopia política exige um corpo de ideias que a converta publicamente numa manifestação plausível e viável de um desejo positivo e específico para estabelecer um futuro perfeito. Tal ideia está alicerçada em dois pressupostos: 1) esse futuro existe e pode ser construído; 2) todas as pessoas têm uma natureza humana predisposta a trilhar o caminho da perfeição, e aquelas que ainda não estiverem são passíveis de remição mediante a política.

Tais certezas permitem ao agente da utopia construir uma política de perfeição, a política de fé no sentido dado ao termo por Michael Oakeshott, que conduzirá a essa tentativa de construção de uma sociedade perfeita, sem dores, sofrimentos, carências, necessidades; a igualdade plena levada às últimas consequências. O argumento comum para rechaçar a evidência de tal impossibilidade é a acusação de que os críticos dessa igualdade rousseauniana rejeitam, não aquele projeto em específico, mas a melhoria das condições de vida da sociedade.

Tal deslocamento é a forma utilizada para não expor a fragilidade substantiva daquele ideal de perfeição e, ao mesmo tempo, criar os inimigos da causa, elementos fundamentais para promover o projeto de forma estridente e seduzir adeptos e simpatizantes. Uma causa sem um inimigo não tem o apelo da força juvenil. É preciso confrontar, brigar, usar a violência como meio de instrumentalização do medo que será, posteriormente, institucionalizada.

Uma ideia usada por uma elite política para controlar um poder e submeter as pessoas não é novidade na história nem se vislumbra a sua derradeira queda. E quando ideologias totalitárias per se descobrem que a economia é antes uma poderosa aliada do que uma inimiga e passam a utilizá-la em nome do projeto, num primeiro momento, uma nuvem de fumaça impede a visualização nítida das diferenças de base entre os defensores de uma economia livre que impeça projetos de poder centralizado e os defensores daquela mesma liberdade econômica de forma a usá-la para solapar, posteriormente, as demais liberdades.

Se crises políticas e econômicas podem se converter num caminho fértil para ideologias antiliberais e, com isso, pavimentar revoluções, o bem-estar político e econômico também pode ser usado como instrumento de despolitização da sociedade com a finalidade precípua de criar uma aparência de equilíbrio e efeito anestesiante que estimule as pessoas a não cuidar da política, o que, neste caso, significaria impedir projetos de transformação social com vistas àquela sociedade perfeita do futuro. Com o tempo, qualquer reação torna-se arriscada e difícil, mas não impossível.

O autor valioso chama-se Winston Spencer Churchill.




Bruno Garschagen, é jornalista e mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa/ Universidade de Oxford.

Publicado no site Ordem Livre.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Como se tornar um jornalista influente

Mídia Sem Máscara

O que vale é a essência da lição que aprendi com meu solidário crítico. Agora eu sei. Jornalismo partidário é uma técnica de propaganda subliminar que visa atingir grupos sem opinião formada.

Bastante preocupado em me preservar dos efeitos nocivos, que por desventura possam advir das opiniões que manifesto em meus artigos, um colega de profissão, com experiência em redações, faculdades e assessoria de imprensa a políticos, advertiu-me com um carinhoso alerta publicado numa rede social. Reproduzo trecho:
"Se você fizesse um jornalismo partidário mais discreto (sem bater sistematicamente nos adversários), certamente, conquistaria mais credibilidade e outros públicos além da tucanada frustada." Confesso que, a princípio, fiquei intrigado com o que seria esse "jornalismo partidário" em busca de "outros públicos". Até então, imaginava que fosse coisa para consumo interno de filiados, algo que, por definição, dispensaria "outros públicos", como acontece, por exemplo, com o jornalismo sindical.

Felizmente, um providencial exemplo me ajudou a compreender o real significado desse formato jornalístico. Li na imprensa (privada) que a TV Brasil, emissora controlada pelo governo federal, não engavetou matérias sobre o mais novo escândalo do ministro Antônio Palocci.

Bingo! Se não se devemos "bater sistematicamente nos adversários", é lógico que o contrário também vale em relação aos companheiros em apuros. É preciso aliviar a mão na hora de socorrer um correligionário. O resto é "denuncismo".

A jornalista Helena Chagas, que dá as cartas na TV Brasil, foi indicada para o cargo justamente por Antônio Palocci. Mas certamente ela agiu pensando em ganhar a confiança do público, que, ao perceber o constrangimento do ministro enrolado, poderia suspeitar que a jornalista fosse, sei lá, uma "tucana frustrada". Isso seria pior do que parecer uma petista aparelhando um órgão de comunicação sustentado com dinheiro público. O que importa, nessas horas, é "ser discreto".

Tudo bem que não dá para comparar artigos opinativos com omissão de matérias jornalísticas, mas o que vale é a essência da lição que aprendi com meu solidário crítico. Agora eu sei. Jornalismo partidário é uma técnica de propaganda subliminar que visa atingir grupos sem opinião formada. No meu caso, segundo captei, não devo falar mal em demasia do governo, alternando eventuais estocadas com críticas a quem não está no governo, tudo para parecer imparcial e assim "conquistar mais credibilidade e outros públicos".

Segundo captei, esse negócio de ser transparente, de assumir valores, não está com nada. Por sorte, posso contar com o aconselhamento de criaturas altruístas empenhadas em me corrigir o rumo.



Wanderley Filho é jornalista e historiador.

Publicado no jornal O Estado.

Mocinhos e bandidos

Mídia Sem Máscara

Uma matéria sobre o "comércio solidário" chamou minha atenção para todas as picaretagens que existem em nome do social. Basicamente, o pequeno fazendeiro africano ou guatemalteco pobre planta lá o seu café ou seu cacau, mas precisa pagar para conseguir o tal certificado de "comércio solidário" e vender o café a um preço maior. O lucro, no entanto, não vai exatamente para o seu bolso.

Quem ganha? O consumidor, que se sente todo superior crente que está ajudando os infelizes africanos e guatemaltecos que jamais ajudaria na vida real. O Starbucks, que vende o seu café a um preço maior para os otários. A ONG alemã, que tem o monopólio da certificação e recolhe a taxa de todos os pequenos fazendeiros que seguem sua cartilha.
Qual a explicação para isso? A mesma que se encontra no apoio aos palestinos, e na maioria das grandes causas progressistas. O tradicionalista americano Lawrence Auster, em bom post traduzido pelo Dextra, dá a dica:

A resposta se encontra no "roteiro" do esquerdismo moderno, no qual todos os fenômenos da sociedade esquerdista são automaticamente encaixados. Como já expliquei antes, o roteiro esquerdista tem três personagens:

(1) o esquerdista, que representa o princípio da bondade, definida como compaixão para com e inclusão dos não-brancos/não-ocidentais e outras vítimas;

(2) o não-esquerdista, que representa o princípio do mal, definido como ganância, discriminação e intolerância para com não-brancos/não-ocidentais e outras vítimas;

e (3) o não-branco/não-ocidental ou outra vítima, que não é ele mesmo um ator moral, nem mesmo um ser humano totalmente formado, porque sua função no roteiro não é fazer nada, mas sim ser o recipiente passivo ou da bondade do esquerdista ou da maldade do não-esquerdista.

Se o não-branco/não-ocidental fosse um ator moral, então suas próprias ações, inclusive suas más ações, teriam que ser julgadas. Mas julgá-lo negativamente seria discriminá-lo, o que viola o próprio significado e propósito do esquerdismo -- a eliminação de toda a discriminação contra não-brancos-não-ocidentais como as vítimas históricas da maldade não-esquerdista.

Portanto, o não-branco/não-ocidental não pode ser visto como um ator moral - como um ser humano que age e é responsável por suas ações.

A explicação é tão boa, que serve para quase qualquer coisa. Por exemplo, para o caso "dos livro do MEC" é a mesma. Eis um trecho do famoso livro:

A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular.

Os intelectuais e políticos de esquerda são os bonzinhos que não querem que os manos da perifa sofram "preconceito linguístico" e lhes ensinam que seu jeito de falar também é "correto". A classe dominante é formada por preconceituosos malvados que tem preconceito contra quem fala errado. Enquanto isso os pobres continuam sempre ignorantes, mas quem se importa?

Uma vez que você entende esse mecanismo, já não consegue mais levar a sério a preocupação dos progressistas com os pobres, os desvalidos, os gays, os maconheiros, os índios, as populações ribeirinhas, etc. Eles são apenas peões nesse jogo.


http://blogdomrx.blogspot.com

Demonstre-o, senhor Presidente!

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Os massacres, segundo o escritório de Direitos Humanos da ONU na Colômbia, aumentaram de forma alarmante. As notícias nos jornais e noticiários estão cheias de mortes a bala e guerras entre os bandos de traficantes de drogas, de roubos e assaltos.

Conta a história, e a recorda Héctor Echeverri Correa, que durante sua presidência o doutor Guillermo León Valencia esteve de visita oficial aos Estados Unidos e um jornalista imprudente lhe perguntou:
- Senhor presidente, os guerrilheiros continuam massacrando camponeses na Colômbia?

- Não senhor, respondeu Valencia, agora se dedicam a matar líderes negros e presidentes. Ele referia-se às mortes do presidente John F. Kennedy e de Martin Luther King, assassinado lá.

Vimos esta semana pela televisão, o presidente Juan Manuel Santos em um tonzinho meio rabugento que não conhecíamos dizendo:

"E que alguns não me digam como devo combater os narco-guerrilheiros, pois isso é o que vim fazendo nestes últimos anos. Não baixamos a guarda e se for necessário apertar mais, o vamos fazer".

Não precisa recorrer à ironia do presidente Valencia para dizer a Santos que os que dissemos que baixou-se a guarda na Segurança Democrática somos muitos. Segundo as estatísticas de "País Libre", o seqüestro na Colômbia no primeiro trimestre desse ano, comparado com o mesmo período do ano passado, aumentou 21 por cento. Os massacres, segundo o escritório de Direitos Humanos da ONU na Colômbia, aumentaram de forma alarmante. As notícias nos jornais e noticiários estão cheias de mortes a bala e guerras entre os bandos de traficantes de drogas, de roubos e assaltos. A "percepção de insegurança" é geral.

Se nos fixamos em Urabá e Chocó, as invasões de fazendas urbanas em Turbo, Apartadó, Chigorodó, Carepa e Carmen del Darién, os seqüestros maciços como os do Atrato não se viam nos últimos anos do governo anterior, quando nosso atual mandatário era ministro da Defesa, mas é que havia outro presidente que fazia seguimento.

Certamente a tudo isto agregamos a desconfiança na Justiça, politizada e parcializada que ordena cárcere para prestigiosos militares que nos defenderam no passado, e para membros do Congresso por vínculos com "para-militares" por simples testemunhos verbais, enquanto aos que se vêem em vídeos e discursos defendendo publicamente as FARC nem sequer se os detém, nem se aceitam provas como os computadores de Reyes, com fotos e vídeos.

Só o fato da apresentação do projeto de lei para a Política Integral da Segurança e Defesa para a Prosperidade, pelo solitário ministro Rivera ante o Congresso, enquanto o Comandante Supremo das Forças Armadas e da Polícia falava ante um organismo civil da Lei do Desporto, nos diz o compromisso que nosso rabugento Presidente tem com a Segurança para a Prosperidade. Oxalá nos demonstrasse com fatos, senhor Presidente!

Devolva a confiança às Forças Militares e de Polícia, com um estatuto pelo qual se julgue os membros das Forças da Ordem por tribunais castrenses que entendam os procedimentos penais para militares. Não diz que estamos em Conflito Armado? Aplique-o à Justiça. Se nossos juízes e magistrados estão sentenciando politicamente, tiremo-los do foro militar!

Devolvamos a confiança no Estado, senhor Presidente, não só aos que votamos no senhor porque acreditamos em seu discurso de candidato, senão a toda a Colômbia. A essa Colômbia hoje inundada que o vê abraçar Hugo Chávez e Rafael Correa, amigos das FARC. O amigo de teu inimigo é também teu inimigo.

Lembre-se desta frase de Laureano Gómez: "Assim como os cargos enaltecem as pessoas, as pessoas também devem enaltecer os cargos que desempenham".

Propina: Desde 1999 não se faz uma atualização dos soldos das Forças Militares e de Polícia. Se somamos a isso os julgamentos enviesados e politizados dos juízes, saberemos o porquê da desmoralização de nossas Forças Armadas.

Fonte: Diário El Colombiano de Medellín

Tradução: Graça Salgueiro

O final de Fausto, de Goethe

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"Compreender o destino é ter alcançado o mais alto grau da sabedoria."
Giordano Bruno

A obra de Goethe, FAUSTO, deveria ser concluída com o passamento do seu personagem, quando finalmente seu trato é concluído ao recitar o máximo instante de felicidade proporcionada a si pelos poderes de Mefistófeles: "Sim, ao Momento então diria:/Oh! Pára enfim - és tão formoso!" Trato feito, trato cumprido? Nada disso. Goethe floreia o seu final, que se alonga além do necessário à primeira vista, para expor sua cosmologia.

Antes convém lembrar a enigmática frase de Fausto, à hora da morte: "À liberdade e à vida só faz juz,/Quem tem que conquistá-las diariamente." Justo ele que, desde seu encontro com Mefistófeles, abandonou qualquer trabalho e qualquer esforço pela existência. Perdera a liberdade? Entrar no transe da morte é tornar-se escravo? Será a simples existência precisamente o que nos torna livres, qualquer que seja a forma de vida trilhada? Penso que sem olharmos qual o fundo filosófico do autor essa frase, e mesmo o conjunto da obra, perde significado. Sua filosofia natural, derivada de três ramos bem distintos, é a chave de tudo.

A mais antiga influência filosófica sobre Goethe é o neoplatonismo, sob as formas compreendidas no Renascimento. Seu grande mestre foi Giordano Bruno. É daí que vai brotar o final, o Eterno-Feminino que salvará e elevará a alma de Fausto. A emergência de figuras femininas salvíficas é expressão acabada dessa crença neoplatônica. Relembremos que tanto Fausto como Gretchen cometem os mais hediondos crimes e pecados. Ela mata a própria mãe, o filho, concorre para o fim trágico do irmão, tudo por amor a Fausto. Ele, da mesma forma, e também como membro participante do culto a Dom Satã. Não há nenhum traço de piedade e arrependimento em Fausto pelos fatos narrados no poema. Ao contrário de Jó, o justo servo incorruptível de Deus, Fausto é o mais corruptos dos homens e não hesita em negociar a própria alma com Satanás. Jó sofre todo tipo de horror e de sua boca nunca sairá uma apostasia. Fausto dá as costas a Deus e se entrega de bom grado a Mefistófeles, o Demônio do Norte, a propósito uma forma de demônio menor, subordinado a Satã.

Gretchen ela mesma, já bem-aventurada, aparece como mediatrix salvadora da alma de Fausto, inusitada aparição!

[É absolutamente relevante sublinhar o elemento "Demônio do Norte", pois aqui está sintetizado o germanismo cuja essência é negar tudo que nasceu dos povos meridionais da Europa, sobretudo o judaísmo e o cristianismo. É como se Roma jamais tivesse existido. As núpcias de Fausto com Helena simbolizam esse élan. Eufórion, o filho dessas núpcias, é a antecipação do próprio Hitler e suas idéias racistas tresloucadas. Está tudo contido no poema, que assume assim uma faceta profética. O fascinante é que Goethe percebe a loucura, o despropósito, descreve o próprio suicídio do povo alemão e, no entanto, cala sobre a imoralidade dessa idéia nefanda, que moldou o século XX.]

É de Bruno, que influenciou Calderon de La Barca, a idéia da vida como uma representação teatral, cujo texto está escrito nas estrelas, cabendo ao astrólogo (o filósofo) decifrá-lo. Essa é uma idéia central, a ponto de, na cena inaugural, Goethe introduzir o próprio diretor de teatro como personagem. Só depois é que vem o Prólogo no Céu, em que o Deus Todo-Poderoso dará autorização para que Fausto seja tentado por Mefistófeles, que diz os memoráveis versos a Deus:

"De forma estranha ele vos serve, Mestre!
Não é, do louco, a nutrição terrestre.
Fermento o impele ao infinito,
Semiconsciente é de seu vão conceito;

Do céu exige o âmbito irrestrito
Como da terra o gozo mais perfeito,
E o que lhe é perto, bem como o infinito,
Não lhe contenta o tumultuoso peito
".

Uma perfeita descrição do homem moderno, ou da modernidade. Ao que Deus responde, dando a pista para a concepção de Goethe, de cunho teológico:

"Se em confusão me serve ainda agora,
Daqui em breve o levarei à luz.
Quando verdeja o arbusto, o cultor não ignora
Que no futuro fruto e flor produz
."

Fica dito portanto que Fausto é o Favorecido de Deus e, faça o que fizer, está salvo, será levado à luz. Vemos aqui ecos do nominalismo de Guilherme de Ockham, na sua forma protestante assumida pelo puritanismo de João Calvino. Os Eleitos estão desde a Eternidade. A vida pessoal e moral nada significa e as obras dos homens são inúteis como instrumento de salvação. A graça de Deus, só por ele conhecida, é que separará o trigo do joio, nos tempos finais. Deus pode tudo e não há lei alguma que não a vontade de Deus.


No livro OS ANOS DE APREDIZADO DE WILHELM MEISTER temos uma personagem, uma teóloga puritana da seita dos Hernutos, que nos dá a pista para essa visão protestante e puritana adotada por Goethe sobre a escatologia. Em todo o poema podemos identificar a militância iluminista anti-católica e anticlerical do autor, reforçando sua inclinação para a heresia ockhamista e calvinista.

Por fim, a terceira visão filosófica é aquela fortemente influenciada por Spinoza, pelo panteísmo que identifica Deus com a matéria. Mas Goethe vai além, ao incorporar elementos do neoplatonismo de Bruno. Para ele, natureza é tudo, inclusive astrologia e as manifestações da alma. Tudo é natureza. O próprio Mefistófeles é também natureza.

O cântico final do Chorus Mysticus resume seu modo de ver:

"Tudo que é efêmero é somente
Preexistência;
O Humano-Térreo-Insuficiente
Aqui é essência;
O Transcendente-Indefinível
É fato aqui;
O Feminil-Imperecível
Nos ala a si
."

A afirmação categórica da lei das analogias, tão cara à filosofia hermética. "Tudo que é efêmero é somente/Preexistência". O que está em cima é como o que está em baixo. O próprio homem é também Deus. Assim o entende a modernidade. Microcosmo e Macrocosmo estão sobrepostos e fundidos. O Idealismo é a representação perfeita dessa idéia.

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