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segunda-feira, 27 de abril de 2009

O “eixo” Obama-Lula e o futuro da América Latina

Mídia Sem Máscara

O presidente Obama, em sua política inaugural para a América Latina, parece haver escolhido caminhos desacertados: a mão estendida para os líderes mais radicais da esquerda e a confiança em um “moderado útil”, o presidente Lula, que se dedica a colocar panos mornos em torno desses líderes radicais.

1. A recente Cúpula das Américas, realizada em 18 e 19 de abril pp. em Puerto Espanha, Trinidad y Tobago, serviu para consolidar as recentes, porém já estreitas relações entre o presidente Obama, dos Estados Unidos, e o presidente Lula, do Brasil, das quais está surgindo uma nova e enigmática co-liderança continental.

2. Na Cúpula Obama foi pródigo em apertos de mãos, abraços, gestos e palavras com os líderes da esquerda radical latino-americana, e também estendeu a mão à ditadura comunista de Cuba, chegando a lhe oferecer “um novo começo”. As cenas protagonizadas pelo presidente norte-americano em Puerto Espanha resultaram chocantes, pelo que significou em matéria de queda de “muros” psicológicos de natural rechaço da opinião latino-americana ao regime castrista e aos governos autoritários de Chávez, na Venezuela, Correa, no Equador e Morales, na Bolívia. E também pelo que significou de desalento e debilitação para as respectivas oposições que nesses países se esforçam, sob circunstâncias sumamente adversas, para salvar as liberdades.

3. Porém, a responsabilidade pela dissolução psicológica desses “muros” de rechaço às esquerdas radicais não foi somente de Obama. Com efeito, segundo reconheceram diversos analistas, por trás dos bastidores atuou intensamente o presidente Lula, levando adiante uma “diplomacia oculta”, atuando como uma “contraparte” de Obama e tentando consagrar seu papel de “mediador extra oficial” entre os Estados Unidos, por um lado, e Cuba comunista junto com o grupo de governos de extrema esquerda latino-americana, pelo outro.

4. A estreita relação entre ambos os mandatários começou em 14 de março pp., poucos dias depois de Obama assumir a presidência de seu país. Lula foi o primeiro presidente latino-americano recebido pelo presidente dos Estados Unidos, em um gesto de deferência indiscutivelmente importante. Para a realização do encontro chegou-se a escolher um sábado, de maneira que as conversações entre ambos pudessem ocorrer sem restrições de horários do protocolo nos dias de semana. Os elogios mútuos e a cálida relação pessoal estabelecida entre ambos os mandatários, foram destacados pelos meios de comunicação.

Pouco depois do encontro presidencial, ainda em território americano, Lula mostrou publicamente suas cartas fazendo uma incrível alegação em favor de Cuba comunista, afirmando que não existiria, desde o ponto de vista “da racionalidade humana”, nada que impeça o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba.

Em Londres, em 3 de abril pp.,durante a reunião do G-20, Obama aproveitou para impulsionar sua co-liderança continental com Lula quando disse em uma roda de mandatários, entre sorrisos e apertos de mão: “Aqui está meu campeão, amo este sujeito, ele é o político mais popular da Terra”.

Na véspera da Cúpula das Américas, Obama falou com Lula por telefone para coordenar posições e ouvir sugestões, ante o qual o presidente brasileiro aproveitou para instá-lo a ceder o máximo possível com relação a Cuba comunista. Antes de subir no avião que o conduziria a Trinidad y Tobago, em entrevista à cadeia de televisão CNN, Obama ressaltou sua estreita colaboração com Lula como um exemplo da “nova era” que se abria entre os Estados Unidos e a América Latina.

5. A pergunta inescapável é para onde poderá conduzir a América Latina este “eixo” político estabelecido entre Obama e Lula. Os primeiros resultados, a julgar pelo que ocorreu durante a Cúpula das Américas, são preocupantes.

Obama, em sua política para a América Latina, lamentavelmente parece ter escolhido caminhos desacertados, que não auguram coisas boas: a aproximação com os líderes mais radicais da esquerda e a confiança nos bons ofícios de um “moderado útil”, o presidente Lula, que, tal como temos mostrado em inúmeros editoriais, se dedica a colocar panos mornos em torno dos desmandos desses líderes radicais, assim como amortecer as relações das respectivas oposições políticas e a desalentá-las. Estaremos presenciando uma re-edição de velhas políticas de ceder para não perder?

6. Além do que foi dito acima, chama a atenção a apatia e até a indiferença com que setores de centro e direita da opinião latino-americana, norte-americana e do próprio exílio de Miami vão acompanhando essas gigantescas transformações, rotações e contradições políticas em nível continental, sem que se levantem clamores ou, pelo menos, reações à altura.

Certos fatos ocorridos na própria Cúpula das Américas servem para ilustrar a dimensão dessa apatia. Por exemplo, durante o evento vários dos 35 governantes falaram contra o “embargo” externo americano sem se referir, sequer de passagem, à causa do problema, que é o “embargo” interno do regime comunista que já leva meio século. Pois bem, não houve sequer um mandatário que colocasse os pingos nos is. A Cúpula das Américas, em seu conjunto, colaborou dessa maneira com um terrível “embargo externo” do qual muito poucos falam, que é a negação da solidariedade moral e da compaixão cristã com relação a 12 milhões de irmãos cubanos, desditosas vítimas do comunismo desde há 50 anos.

Nesses mesmos dias da Cúpula, Fidel Castro escreveu que as concessões de Obama eram insuficientes, porque o problema central seria o “embargo cruel” americano, e poucos na América Latina se levantaram para lembrar que Castro deveria ver a trave em seu próprio olho, uma vez que seu regime é um exemplo vivo das maiores crueldades em Cuba e também no continente, através dos movimentos guerrilheiros inspirados e treinados por Havana.

7. É difícil entender como tudo isto pode estar ocorrendo sem que se levante um clamor de indignação proporcional. Destaque Internacional tem abordado os problemas da apatia e das anestesias psicológicas coletivas que estão afetando vastos setores dirigentes e da população. Um estudo recentemente publicado na edição digital das Atas da Academia Nacional de Ciências, dos Estados Unidos (PNAS), traça uma interessante relação entre a velocidade com que os meios digitais transmitem os numerosos acontecimentos contemporâneos, e a apatia e falta de compaixão que produz a incapacidade de digerir essa voragem de acontecimentos. Identificar e caracterizar os fenômenos de apatia, indiferença e anestesia psicológica já é meio caminho andado para encontrar suas causas e revertê-lo.

Referências em ordem cronológica:

Patrícia Campos Mello, "Lula pede o fim de embargo a Cuba", O Estado de São Paulo, 17 de março de 2009; Agencias de Noticias, "Obama: 'Amo este sujeito'", El País, Montevidéu, domingo 05 de abril de 2009; EFE, desde Madrid "Meios digitais: Rapidez estimula indiferença - Cientistas avaliam reações de admiração e compaixão", O Estado de S. Paulo, 14 de abril de 2009; Fabiana Uchinaka e Thiago Varella, "Cuba e crise são principais assuntos do primeiro encontro de Obama com líderes das Américas", UOL Notícias, São Paulo, 16/04/2009 - 21h03; AA.VV., "Por telefone, Lula e Obama afinam posições", O Estado de S. Paulo, 17 de abril de 2009; Ruth Costas, "Obama acena com 'relação de iguais'. Líder dos EUA promete nova era no relacionamento com América Latina", O Estado de S. Paulo, 17 de abril de 2009; Denise Chrispim Marin y Patrícia Campos Mello, "Brasil atua para facilitar diálogo entre Washington e Havana", O Estado de São Paulo, 19 de abril de 2009; Enviada especial de La Nación a Puerto España, "Lula e Uribe, protagonistas por trás dos bastidores. Foram os encarregados da diplomacia oculta", La Nación, Buenos Aires, domingo 19 de abril de 2009.

* Destaque Internacional - Informes de Conjuntura - Ano XII - No. 275 - São José - 21 de abril de 2009 - Responsável: Javier González. – www.cubdest.org

Tradução: Graça Salgueiro

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